Há músicas que funcionam como um sonho: você as escuta, algo te atravessa, e só mais tarde percebe o que foi que aconteceu. Orestes, faixa marcante do álbum de estreia do A Perfect Circle — Mer de Noms, lançado em 2000 — é exatamente assim. Em menos de cinco minutos, a obra toca em feridas que a cultura contemporânea prefere medicar a escutar: a dor da separação, o vínculo insolúvel com a mãe e o desejo de se libertar de algo que te constitui e te aprisiona.
Para entender a carga clínica desta música, é preciso olhar para o seu contexto. Maynard James Keenan, o vocalista, lidava com o peso do adoecimento crônico de sua mãe, Judith Marie, que sofreu um derrame severo e viveu paralisada por quase 30 anos. Ela faleceria anos após o lançamento do álbum, mas toca em algo muito mais profundo e aterrador: a fantasia dolorosa de dar fim a um sofrimento insuportável.
O próprio nome da banda nasce dessa música. A Perfect Circle tomou sua identidade do verso de abertura: “Metaphor for a missing moment / Pull me in to your perfect circle / One womb, one shame, one resolve / Liberate this will to release us all”. O círculo perfeito é o útero. E é exatamente desse círculo que a música pede libertação, o desejo de romper com o “resíduo umbilical”.
O título remete à figura mitológica grega: Orestes assassinou sua mãe Clitemnestra após ela matar seu pai Agamêmnon. Trata-se de um mito sobre culpa, dívidas impagáveis e lealdade impossível.
Na psicanálise freudiana e lacaniana, o “matricídio” não é um ato literal, mas de ordem estrutural. A entrada na linguagem, na cultura e na vida desejante exige uma ruptura com a fusão originária materna. Emergir como sujeito é um processo longo e doloroso. Maynard não está propondo destruir a mãe, mas elaborando o corte necessário para a emergência desse sujeito, algo que não é inato, mas que advém do desprendimento, separando-se sem negar a própria origem.
Esse “resíduo umbilical” é comum na clínica psicanalítica. É o paciente que, diante do sofrimento, retorna ao mesmo ponto de fixação: a família que o constituiu de um jeito que ele não escolheu. A análise é um trabalho sobre esse fio: não para cortá-lo de forma bruta, mas para entender do que ele é feito.
Do ponto de vista musical e técnico, a escolha de afinação do A Perfect Circle espelha perfeitamente o luto. A guitarra de Billy Howerdel (uma Gibson Les Paul) é afinada em C# Standard, um tom e meio abaixo do convencional. Howerdel, utiliza essa afinação para criar peso sem depender do ganho excessivo de distorção.
Por que isso importa na escuta clínica e musical? Porque afinar a guitarra três semitons abaixo não é só técnica, é uma escolha afetiva. A frequência vibra mais devagar, ganhando corpo. Quando a música pede o corte do resíduo umbilical sob esse timbre grave, o ouvinte sente a densidade no próprio corpo. É a estrutura sonora análoga ao processo de luto: começa suspensa, quase em silêncio, e adquire um peso insuportável. Para Howerdel, a demo instrumental de Orestes já carregava essa angústia antes mesmo de Maynard escrever a letra. O afeto, como muitas vezes ocorre na clínica, precedeu o sentido.
Quando alguém busca ajuda com uma tristeza profunda, luto ou dificuldade de romper relações sufocantes, a primeira resposta da cultura atual costuma ser química: um ansiolítico, um antidepressivo. Embora o uso criterioso de psicofármacos tenha seu lugar, o problema ocorre quando a medicação substitui a palavra.
O sintoma é uma formação do inconsciente. Ele tem algo a dizer. O que Orestes faz é o que a clínica propõe: dar voz ao inominável, em vez de engolir um comprimido para fingir que não há um fio a ser cortado.
Mer de Noms (“mar de nomes”, em francês), um catálogo de nomes reais da vida de Keenan. É, em sua essência, um trabalho de elaboração. Muitos chegam ao consultório quando o peso das relações se torna esmagador e o silenciamento falhou. Cortar não é sempre a única resposta, mas suportar a indefinição tampouco é o caminho.
Transformar o inominável em palavra — seja através dos graves de uma guitarra, da letra de uma música ou da fala no divã — é uma das poucas formas que temos de não sermos devorados por ele.
William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.