Se você assistiu ao recente filme nacional “A Conspiração Condor”, provavelmente foi capturado por um contraste perturbador. Por um lado, somos seduzidos pelo cenário vintage dos anos 60 e 70: a estética impecável das roupas, o design dos carros de época e a nostalgia visual com uma paleta de cores muito bem aplicada. Por outro lado, somos confrontados com o horror inominável do autoritarismo, da tortura e do silenciamento.
Frequentemente lidamos na clínica com contrastes semelhantes. Aquilo que é belo na superfície muitas vezes atua como um véu (uma fantasia) para encobrir algo terrível e traumático que é do campo do Real.
A atenção que a estética vintage do filme nos desperta não é acidental. O ser humano precisa de certas roupagens, reais, simbólicas e imaginárias para suportar o peso da realidade. Os anos de chumbo no Brasil foram marcados por um terror do Estado. A elegância da época nas telas serve como um contraponto angustiante: enquanto a vida parecia seguir seu curso normal nas ruas arborizadas, nos porões, o Estado exercia um poder mortífero.
Pensar e investigar uma conspiração na época da ditadura não era apenas um trabalho jornalístico; era um ato de resistência política. E, sobretudo, um ato de profundo desejo de saber, que esbarrava na barreira da repressão.
Aqui, podemos fazer um instigante jogo de palavras com um conceito central do psicanalista Jacques Lacan: o peri(gozo).
Denunciar o conluio do governo americano com os golpes militares na América Latina era algo extremamente perigoso. Mas o que tornava esse perigo tão letal? O fato de que essa denúncia expunha o gozo perverso do Estado.
O gozo não é sinônimo de prazer, mas de um excesso que beira a dor, a destruição e a pulsão de morte. Os regimes autoritários operavam sob um gozo sádico: o gozo de dominar, de torturar, de decidir quem vive e quem morre sem prestar contas à lei.
Quando a jornalista do filme decide investigar as mortes e as alianças obscuras, ela entra na mira desse peri(gozo). Ela desafia o gozo mortífero de um sistema que não tolera ser exposto. Ao tentar trazer à luz a verdade, ela coloca o seu próprio corpo na engrenagem de um Outro (o Estado) que não tem limites.
Um dos pontos mais tocantes e revoltantes da narrativa é o destino trágico da jornalista mulher, que é “suicidada” pelo regime. Essa manipulação da cena do crime não é apenas um recurso cinematográfico; é um trauma histórico real e profundo no Brasil, eternizado no caso do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões do DOI-CODI sob a falsa versão de suicídio.
“Suicidar” alguém (forjar o próprio suicídio da vítima) é a perversão máxima da verdade. O Estado não apenas rouba a vida do sujeito, mas tenta roubar também a sua narrativa e a sua dignidade, mascarando o homicídio político com a falsa ideia de um ato de desespero pessoal.
O silenciamento dessa mulher no filme representa a tentativa de calar o sintoma social. Quando a verdade dói demais ou ameaça a estrutura de poder, a resposta do regime é a aniquilação física e simbólica.
O cinema nacional cumpre o papel fundamental de elaborar o nosso luto coletivo e nossos traumas históricos. Mas o trauma não é apenas social; ele atravessa gerações e se instala na vida de cada um de nós.
Muitas vezes, em nossa própria história de vida, também fomos silenciados. Também nos deparamos com o gozo destrutivo de figuras de autoridade (na família, no trabalho, nos relacionamentos) e sentimos o “perigo” de bancar o nosso próprio desejo e a nossa verdade.
O espaço analítico é também um lugar de resistência. Onde você pode falar aquilo que tentaram silenciar, onde a sua verdade não será “suicidada” por uma escuta rasa e onde é possível elaborar as angústias que você carrega.
Você sente que há verdades na sua vida que estão silenciadas ou que parecem perigosas demais para serem ditas em voz alta?
William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.