Do Códice de Nag Hammadi à Dissolução de Lacan: o Perigo da Cola Institucional em Stigmata (1999)

Se em Stigmata (1999) o Vaticano treme diante de um evangelho que prega a desnecessidade da Igreja, na história da psicanálise Jacques Lacan precisou implodir sua própria criação para tentar salvar a psicanálise dos psicanalistas. O paralelo não é forçado é de ordem estrutural.

Existe um paralelo fascinante entre o “Evangelho de Tomé” encontrado de fato em Nag Hammadi (Egito) em 1945 sob a forma de Códices coptas (livros encadernados, não pergaminhos enrolados como no filme) e a dissolução da escola fundada por Lacan.

Os textos descobertos em Nag Hammadi incluem evangelhos considerados apócrifos pela Igreja Católica, como os de Tomé, Filipe e Maria Madalena. Eles apresentam um Jesus que ensina sabedoria oculta, não apenas salvação pela fé uma visão radicalmente diferente da autoridade eclesiástica. Acredita-se que esses textos tenham sido escondidos para preservá-los da destruição, à medida que a Igreja primitiva definia o cânone bíblico e rotulava o gnosticismo como heresia. No contexto gnóstico, o apocalipse não designa o fim da instituição física, mas a libertação da alma do mundo material o que torna a ameaça do Vaticano no filme ainda mais reveladora de sua própria estrutura de poder.

Há um momento crucial em Stigmata que rompe com a barreira das línguas mortas. Frankie, até então vociferando em aramaico, dirige-se ao Padre Kiernan em um italiano claro e direto:“Il messaggero non è importante” — O mensageiro não é importante. 

Nessa cena, o filme toca no nervo exposto de qualquer instituição. A Igreja assim como muitas escolas de psicanálise que são obcecadas pelo mensageiro: a hierarquia, a autorização, quem tem o direito de falar, os autores canônicos, quem veste a batina ou detém o título de Didata. Ao afirmar que o mensageiro é irrelevante, a “entidade” denuncia o narcisismo das pequenas diferenças.

Essa frase ecoa o desejo do analista: o analista deve cair, deve ser um “resto”, para que a verdade do sujeito possa emergir. Se o mensageiro se torna importante demais, ele vira ídolo, e a mensagem do inconsciente é silenciada pela fascinação imaginária pela figura do Mestre.

É exatamente contra essa idolatria do mensageiro que Lacan agiu em 1980. O trecho do filme “Levante a madeira e eu estarei lá” sugere uma imanência que dispensa intermediários, algo que a burocracia do Vaticano não pode tolerar. Da mesma forma, Lacan percebeu que sua École Freudienne de Paris havia se tornado uma Igreja: os alunos imitavam o Mestre em vez de produzir saber.

Lacan, mestre nas homofonias, brincou que a única solution (solução) para a Escola era enunciá-la a partir de sua dissolution (dissolução). Por quê? Devido ao que ele chamou de “Efeito de Cola” (Effet de Colle).

Em francês, École (Escola) soa perigosamente próximo de Colle (Cola). Lacan denunciou que as instituições tendem a produzir um efeito de grupo, no qual os sujeitos se “colam” uns aos outros e à imagem do Líder, parando de pensar por conta própria. O Cardeal Houseman, vilão do filme, é a personificação dessa cola: prefere destruir a permitir que a verdade venha à tona e dissolva a necessidade do clero.

Para combater o efeito de cola e a sacralização do mensageiro, Lacan propôs o Cartel: pequenos grupos de trabalho (4 pessoas + 1), rotativos e temporários, nos quais o saber não se sedimenta em poder. O cartel é, estruturalmente, o oposto do Vaticano: não há um Papa, apenas trabalhadores que decidem, um a um, sobre sua própria produção.

Tanto o filme quanto a história da psicanálise terminam com uma ironia dura. Em Stigmata, mesmo após a revelação da verdade, a Igreja Católica permanece de pé, poderosa e imutável, tratando os textos descobertos como heresia. No campo lacaniano, o ato de dissolução de 1980 não impediu o retorno do recalcado: as escolas se multiplicaram, muitas vezes reproduzindo a mesma cola que Lacan tentou dissolver.

A lição permanece: a instituição tem horror à verdade que diz proteger. Seja no deserto do Egito ou nos consultórios contemporâneos, a estrutura tende a se fechar em torno de seus mensageiros. Cabe ao analista sustentar a ferida aberta da verdade recusando a cicatrização da burocracia e lembrar que o mensageiro não importa. O que importa são o trabalho e os efeitos simbólicos de uma análise para cada analisante.

William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.