O Fantasma, o Desmoronamento e a Reinvenção do Amor em “O Drama” (2026)

O filme O Drama (2026) é um verdadeiro tratado sobre a subjetividade. Mais do que um simples enredo cheio de reviravoltas, a obra nos convida a olhar de perto para as nossas próprias relações.

Uma das questões centrais de O Drama é como somos afetados pelas histórias que nos contam. Na psicanálise, entendemos que o sujeito se constitui a partir do campo do Outro. O filme ilustra magistralmente como a narrativa do outro causa construções fantasmáticas em nós.

Mas o que é exatamente o “fantasma”? Não se trata de assombrações, mas da fantasia inconsciente que sustenta a nossa realidade. É o fantasma que dita como nos relacionamos com o mundo e, principalmente, como sustentamos a nossa relação com o que Jacques Lacan chamou de objeto a (a causa do nosso desejo).

Nós vestimos o outro com a nossa própria fantasia para podermos desejá-lo. Mas o que acontece quando essa fantasia não se sustenta mais?

Ao longo do filme, o espectador é arremessado por diversas narrativas conflitantes. Essa genialidade do roteiro nos faz sentir na pele a desorientação que os personagens estão vivendo.

Chega um momento na trama em que algo estrutural desmorona. A fantasia falha em encobrir a angústia. A nossa estrutura psíquica é mantida por um nó borromeu, o entrelaçamento de três registros fundamentais: o Real, o Simbólico e o Imaginário.

Quando a ilusão da narrativa do outro cai por terra, o filme mostra algo que é, ao mesmo tempo, violento e libertador: o sujeito é atravessado por um real insuportável. Esse impacto desfaz temporariamente o nó borromeu. A realidade, da forma como o personagem a conhecia, se desintegra.

É o momento de crise, de angústia pura, que muitos de nós enfrentamos em términos de relacionamento, perdas irreparáveis ou mudanças bruscas de vida.

Se o filme nos leva por um labirinto de narrativas que desmoronam, ele também nos oferece uma saída brilhante e profundamente analítica em seu desfecho.

Como se reconstruir após o nó se desfazer? A resposta de O Drama está na célebre formulação lacaniana de que só o amor permite ao gozo condescender ao desejo.

O gozo, na psicanálise, é aquilo que excede, que repete e que, muitas vezes, nos faz sofrer. No entanto, o final do filme nos mostra que dar espaço ao amor não é buscar a perfeição ou uma fusão romântica idealizada. É, na verdade, dar a si mesmo a chance de criar uma nova narrativa.

Quando o amor cria caminhos para o gozo condescender ao desejo, o sujeito aceita a falta estrutural do outro e de si mesmo, conseguindo amarrar o seu nó borromeu de uma forma inédita.

É fundamental nos permitirmos a chance de criar uma nova narrativa diante do nosso próprio desejo, mesmo após os maiores desmoronamentos.

William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.