Desejo, Gozo e Sofrimento em Morro dos Ventos Uivantes (2026)

A nova adaptação cinematográfica de O Morro dos Ventos Uivantes (2026) entrega um desfecho impactante e nos convida a uma reflexão muito mais densa sobre a natureza dos nossos vínculos. A dinâmica do casal principal ultrapassa a ideia romântica tradicional e nos lança direto no que a psicanálise chama de excesso: uma relação onde o sofrimento a dois transborda e consome todos ao seu redor.

Mas por que algumas relações amorosas causam tanta dor e, ainda assim, parecem impossíveis de serem rompidas? A resposta pode estar na complexa fronteira entre o desejo e o gozo.

Para responder a essa pergunta, precisamos recorrer a Jacques Lacan. Em seu Seminário 10: A Angústia, Lacan propõe que o desejo funciona como uma espécie de defesa contra o gozo. Em termos simples, o desejo é o que nos mantém caminhando, buscando, criando laços sociais; já o “gozo” (na psicanálise) não é sinônimo de prazer, mas sim de um excesso, uma satisfação paradoxal que frequentemente vem acompanhada de dor, repetição e destruição.

No entanto, o filme nos mostra o avesso dessa proteção. Em O Morro dos Ventos Uivantes, vemos como a força avassaladora do gozo faz o sujeito ceder, arrastando o desejo para um ciclo de voltas em falso. O resultado? Um sofrimento atroz. A paixão ali não constrói; ela exige sacrifícios constantes, destruindo a saúde mental e a vida das demais personagens da trama que têm a infelicidade de orbitar esse casal.

Um detalhe clínico fascinante na dinâmica do casal do filme é a relação com o olhar do Outro. Em vários momentos, percebemos que a intimidade deles não basta por si só: eles quase pedem para ser flagrados por terceiros.

O que sustenta o laço do casal na história de Emily Brontë retratado nesta versão de 2026 é justamente essa amarração patológica onde o poder e o “proibido” ditam as regras.

Quando a paixão se estrutura no campo do gozo, o sujeito perde o limite. O filme nos emociona em seu desfecho porque escancara a nossa vulnerabilidade diante das nossas próprias pulsões. Ele nos lembra que o amor, quando desamarrado de um limite simbólico, pode se tornar uma prisão.

William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.