Ao longo das temporadas, acompanhamos a ascensão de Thomas Shelby não apenas como um gângster e político, mas como um sujeito profundamente marcado por fraturas psíquicas. A trajetória de Tommy oferece um vasto campo de exemplos sobre o trauma, a toxicomania como tentativa de tamponar a angústia e as consequências de seguidas tentativas de se colocar no lugar da Lei.
Tommy retornou da Primeira Guerra Mundial, mas a guerra nunca saiu dele. Como escavador na 179ª Companhia de Tunelamento dos Engenheiros Reais do Exército Britânico, ele serviu nas frentes mais mortais da França e da Bélgica, sobrevivendo a massacres como os de Somme e Verdun. Sua missão era cavar passagens por baixo das linhas inimigas (o Império Alemão) para plantar explosivos, uma tarefa letal que envolvia combates corpo a corpo brutais e absolutamente silenciosos contra escavadores alemães na escuridão do subsolo.
O som ininterrupto das pás e a asfixia das trincheiras tornam-se a pura manifestação do trauma: um Real indizível, algo que rompe violentamente as defesas do seu Eu e que a linguagem não consegue dar conta de nomear. É a neurose de guerra1 em sua forma mais crua, onde a repetição não traz alívio, apenas o reviver contínuo do horror.
Para suportar o insuportável, Tommy recorre a uma “muleta química”. O abuso constante de álcool, tabaco e, de forma mais obscura e letal, o uso de ópio (e seus derivados), funcionam como uma tentativa desesperada de anestesiar a pulsão de morte e silenciar os fantasmas que o assombram. Na psicanálise, a toxicomania muitas vezes se apresenta como uma resposta do sujeito a um gozo que transborda, em uma tentativa frustrada de criar uma barreira artificial contra a angústia.
Contudo, essa “automedicação” cobra seu preço na forma de delírios e alucinações. As visões perturbadoras que Tommy tem, seja dos inimigos alemães mortos no escuro, das traições imaginárias ou das aparições de Grace, não são apenas efeitos colaterais químicos. O álcool e o ópio afrouxam os recalques, permitindo que a culpa, o luto não elaborado e a paranoia retornem de forma avassaladora e alucinatória.
Para compreender o sofrimento de Tommy, é fundamental trazer aqui o conceito freudiano de Nachträglichkeit, frequentemente traduzido como a posteriori. Freud propõe que um evento traumático não opera necessariamente em um único momento linear. O trauma se constitui em dois tempos: uma primeira experiência que não pôde ser totalmente compreendida ou processada no momento em que ocorreu, e um segundo evento posterior, que reativa a memória original, conferindo-lhe um sentido insuportável e desencadeando, de fato, o efeito traumático.
A guerra, com sua lama, combates corporais no subsolo e sangue, foi o primeiro tempo. No entanto, é a sucessão de perdas e traições na vida de Tommy, em especial a morte abrupta de Grace e as rupturas dentro de sua própria família. Cada nova perda ressignifica retroativamente o desamparo vivenciado nos túneis da França e da Bélgica. Os delírios de Tommy, portanto, não são meras alucinações tóxicas; são a atualização contínua do passado invadindo o presente. O ópio é a tentativa de paralisar o tempo psíquico para impedir que o a posteriori lhe cobre uma conta que em algum momento terá de cobrir.
Em narrativas clássicas, o parricídio, a destituição da figura que detém o poder absoluto, é o corte necessário para que o sujeito possa se separar do Outro e assumir seu próprio desejo. A morte do “Pai” é a porta de entrada para a própria subjetividade, um ato de libertação.
A tragédia de Peaky Blinders reside no fato de que o parricídio de Tommy Shelby opera em uma lógica praticamente reversa. Ao longo de sua vida, Tommy aniquila sistematicamente toda e qualquer figura de autoridade que se coloque acima dele: inspetores de polícia, chefes de máfia rivais, aristocratas, o establishment britânico e, simbolicamente, a sombra de seu próprio pai biológico, um homem ausente e falho. Ele realiza o movimento descrito por Freud em Totem e Tabu: ao derrubar o Pai tirânico da horda primitiva, Tommy apropria-se do poder absoluto e torna-se, ele próprio, a Lei encarnada da família Shelby.
Porém, o desfecho trágico dessa dinâmica revela uma torção na teoria freudiana. Ao determinar que seu próprio filho bastardo seja o executor de sua morte, Tommy eleva o controle a um patamar único. Ele não permite ser surpreendido pela revolta dos filhos, como no mito original da horda primitiva. Pelo contrário, é o próprio Pai quem decide quando e como vai morrer. Ao orquestrar o próprio assassinato, ele esvazia o ato de seu potencial libertador. O parricídio deixa de ser uma quebra de correntes para o filho e passa a ser o último e irrefutável comando do Pai.
Esse é o verdadeiro peso de ser “O Homem Imortal”. Ocupar o lugar do Pai da horda não traz paz, mas sim uma necessidade onipotente de regulação constante e paranóica. Tommy Shelby está condenado ao isolamento estrutural daquele que se coloca acima da castração: ele se torna o déspota que dita todas as regras do jogo, inclusive o apito final.
Peaky Blinders: O Homem Imortal carrega em seu título uma provocação psicanalítica. A imortalidade de Tommy não é uma dádiva, mas a maldição de quem não consegue morrer simbolicamente para renascer como um sujeito comum. Seu império, construído sobre corpos e anestesiado pelo uso de ópio, é uma fortaleza erguida para esconder a fragilidade de um homem que, no fundo, continua preso e sem ar nos túneis subterrâneos de seu próprio inconsciente. A ironia clínica de sua trajetória é que o trauma estruturante, gerado pelo embate contra o exército alemão na Primeira Guerra Mundial, exige um retorno ao Real para ser concluído. O ciclo de repetição de Tommy só se encerra quando ele contra-ataca uma nova investida do exército alemão, agora na Segunda Guerra Mundial. É apenas na consumação deste ato, morrendo, que ele finalmente cala o som das pás e consegue a paz.
Lidar com os próprios fantasmas exige mais do que ambição cega; exige a aceitação da própria vulnerabilidade e a coragem para falar daquilo que dói, rompendo o ciclo de repetição e paranoia.
William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.
- *Freud aborda o tema em Além do Princípio do Prazer (1920) a partir da observação desses veteranos de guerra (e da brincadeira do Fort-Da de seu neto) que Freud fundamenta a compulsão à repetição e, consequentemente, a pulsão de morte. Em Introdução à Psicanálise das Neuroses de Guerra (1919) , Freud argumenta que as neuroses de guerra não são causadas apenas pelo choque físico, mas por um conflito no Eu (Ego). E também em “Memorando sobre o Tratamento Elétrico dos Neuróticos de Guerra” (1920) – Um documento histórico fascinante onde Freud depôs em uma comissão do governo austríaco. Onde criticou os psiquiatras militares que usavam choques elétricos dolorosos para “curar” (ou punir) os soldados com neurose de guerra para forçá-los a voltar ao front.
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