Desejo, interdição e o preço do beijo em Two People Exchanging Saliva (2024)

O curta-metragem Two People Exchanging Saliva (2024) venceu o Oscar de Melhor Curta-Metragem e não foi por acaso. Escrito e dirigido pela dupla Natalie Musteata e Alexandre Singh. Em menos de 40 minutos, constrói um dos universos distópicos mais perturbadores e precisos dos últimos anos.

E fica a pergunta: o que esse filme está dizendo, afinal? E por que incomoda tanto?

Em uma sociedade onde beijar é punível com a morte, e onde as pessoas pagam por compras recebendo tapas no rosto, Angine uma mulher infeliz compra compulsivamente num grande magazine. Ela se encanta por Malaise, uma vendedora espontânea e perigosamente presente. O que nasce entre elas não é apenas um amor proibido: é uma subversão de toda a ordem daquele mundo.

Filmado em preto e branco nas Galeries Lafayette de Paris, o filme abre com uma pequena reprodução de O Beijo (1892), de Toulouse-Lautrec. A escolha estética não é decorativa. O preto e branco higieniza o mundo, retira a cor da experiência, assim como a Lei daquele universo fictício retira o calor do contato com outro.

Freud já demonstrou em Totem e Tabu que a proibição e o desejo não são opostos, são coexistentes. A interdição não elimina o desejo: ela o constitui. Quanto mais radical a proibição, mais intenso e estruturante o desejo que ela engendra. Em Two People Exchanging Saliva, a cena é perfeita para isso: em um mundo onde o beijo é crime capital, o que seria um gesto banal o simples toque de dois pares de lábios transforma-se no ato mais carregado de sentido que dois seres humanos podem realizar.

Lacan aprofunda isso com o conceito de “das Ding” (a Coisa) e com a ideia de que o desejo é sempre desejo do Outro. Angine não deseja simplesmente Malaise: ela deseja o que o sistema diz que ela não pode ter. A cobiça do objeto proibido é estruturalmente reforçada pela própria Lei que o condena. Sem a interdição, o beijo seria apenas um beijo. Com ela, o beijo vira um ato político, erótico e subversivo ao mesmo tempo um ato que, naquele mundo, vale a vida.

Isso não é mera ficção de curta metragem. É a lógica do desejo funcionando em cena.

O elemento que mais desconcerta o espectador e que é chave para a interpretação é o sistema de pagamento. Naquele mundo, paga-se recebendo tapas no rosto, em proporção ao valor do que se consome. Sofrimento é moeda aceitável; atração, não.

Isso tem um nome: é a lógica da pulsão de morte operando como estrutura social. O sofrimento é regulado, quantificado, burocratizado e portanto, tolerado. O afeto, o toque amoroso, o beijo, são o que escapa a qualquer regulação. E é justamente o incontrolável que o sistema tenta eliminar.

Freud já apontava, em O Mal-Estar na Civilização, que toda sociedade opera uma renúncia pulsional como condição de existência coletiva. O que o filme faz é levar isso ao limite para nos mostrar o que já existe, disfarçado, no nosso próprio mundo: violência normalizada e intimidade interditada.

Os próprios diretores disseram que a ideia surgiu a partir da observação de regimes autoritários que esmagam a expressão de intimidade singular.

Muitos espectadores relatam desconforto, estranhamento, até irritação com o filme. Isso é sintomático. O absurdo do universo de Two People Exchanging Saliva provoca angústia exatamente porque o mecanismo que ele descreve não é estranho: é muito familiar.

A cena de Angine recebendo tapas para pagar por seu consumo compulsivo, compulsão que é claramente uma tentativa de preencher um vazio. Ela compra porque não pode beijar. O objeto de consumo ocupa o lugar do objeto de desejo. E o sistema lucra exatamente com essa substituição. Quando o filme incomoda, é porque toca em algo que o espectador reconhece sem querer reconhecer.

A narração em off é de Vicky Krieps, sua voz fria e precisa é a voz da Lei narrando a si mesma. O filme ganhou o prêmio de Melhor Curta ao empatar com outro filme na cerimônia do Oscar 2026.

E há ainda um dado que circulou entre os espectadores mais atentos: o nome das personagens não é aleatório. Angine em francês significa angina, dor de garganta, a dor que bloqueia a voz, o grito, o beijo. Malaise é mal-estar. Pétulante (a gerente ciumenta) é aquela que fervilha, que transborda de afetação. Os nomes operam metaforicamente como diagnósticos.

Num momento histórico em que vemos, ao redor do mundo, a regulação crescente dos corpos, das identidades e das formas de afeto, Two People Exchanging Saliva faz o que a grande arte faz: não explica, mas torna visível. Não conforta, mas interroga.

O filme é um convite para que cada espectador se pergunte: em que sistema de proibições eu vivo? O que, no meu contexto, ocupa o lugar do beijo proibido? O que eu pago e com que moeda para me aproximar ou me distanciar do meu desejo?

William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.