Quando falamos de tensão no cinema contemporâneo, poucos filmes atingem o nível de maestria de Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino. Mas o que torna a obra tão impactante não é apenas a violência, e sim a profunda violência simbólica e a tortura psicológica executada pelo personagem do Coronel Hans Landa.
O filme oferece um prato cheio de conteúdos da ordem da perversão, do jogo de poder e do peso dos não-ditos.
Logo na sequência de abertura, após ordenar o massacre da família Dreyfus de Shosanna, Landa a observa fugindo e, em vez de atirar, grita: ‘Au revoir, Shosanna!’
A escolha das palavras nunca é mero acidente; o discurso carrega as intenções inconscientes e os atos falhos. Ao escolher “Au revoir” (Até logo) ao invés de “Adieu” (Adeus), Landa recusa-se a dar um fechamento, um corte simbólico àquela tragédia. O “adeus” significaria o fim. O “até logo” é a promessa do retorno, a manutenção do laço sádico que instaura um trauma contínuo. Ele não apenas a deixa viva, mas garante que a sombra dele a persiga, mantendo-a aprisionada na angústia da repetição.
Anos depois, o reencontro no restaurante é uma das cenas mais sufocantes do cinema, construída inteiramente sobre uma dinâmica de poder esmagadora. A tortura aplicada por Landa ali não arranca sangue, mas tenta desintegrar Shosanna psicologicamente.
Landa faz questão de pedir um Apfelstrudel para Shosanna e a proíbe insistentemente de comer antes que o creme chegue. O detalhe sádico e histórico é que, durante a guerra, a massa desse doce e os cremes frequentemente levavam banha de porco, um alimento não-kosher, estritamente proibido no judaísmo. Ao forçá-la a consumir o prato, Landa está violando sua identidade cultural e sua lei simbólica.
Para coroar o sadismo, ele não pede vinho ou água para acompanhá-la, mas um copo de leite. É exatamente a mesma bebida que ele pediu e bebeu metodicamente na fazenda da família LaPadite, no dia em que a família de Shosanna foi assassinada sob o assoalho. O leite atua como objeto do trauma, trazendo o Real do massacre de volta à mesa.
Ele devora a própria sobremesa e, de forma bruta, apaga o cigarro no creme, mostrando que ele tem o controle absoluto de consumir e destruir quando quiser. Logo depois, Landa afirma que tinha algo a perguntar. O que se segue é um silêncio avassalador. O silêncio do Outro é desesperador, pois é nesse vácuo que o sujeito projeta seus piores fantasmas. Landa lê o pânico no rosto de Shosanna e, após saborear sua fragilidade escancarada, finge que esqueceu a pergunta. É um jogo perverso de gato e rato onde a arma é a manipulação psicológica.
Tarantino não se contenta em analisar a guerra; ele analisa o papel do próprio cinema através da metalinguagem. Para isso, ele cria um filme dentro do filme: “Stolz der Nation” (Orgulho da Nação).
A obra fictícia recria perfeitamente a estética da propaganda nazista liderada por Joseph Goebbels. Nela, o soldado alemão Fredrick Zoller é elevado à categoria de herói absoluto por abater centenas de inimigos. Vemos aqui a construção do “Ideal do Eu” e a alienação das massas: a carnificina real da guerra é apagada e substituída por uma imagem narcísica, glamourizada e romantizada.
Ao fazer com que a cúpula nazista ria e aplauda a morte na tela do cinema, Tarantino escancara como a arte pode ser usada como um mecanismo de defesa de massas e de lavagem cerebral, negando a castração e a morte para sustentar uma ilusão de poder absoluto. Ironicamente, será o próprio cinema (literalmente) que Tarantino usará para queimar essa máquina fascista no clímax do filme, levando à morte da alta cúpula nazista (incluindo o próprio Führer).
O cinema é um espelho das nossas angústias mais profundas, e entender as dinâmicas de personagens como Hans Landa nos ajuda a pensar sobre como o poder, a linguagem e o trauma operam na clínica.