O filme “Vidas Passadas” (Past Lives), da diretora Celine Song, é muito mais do que um drama romântico; é uma reflexão profunda sobre a constituição do sujeito, as marcas do passado e o peso das escolhas que fazemos. Para a psicanálise, a história de Nora e Hae Sung oferece um campo fértil para discutir temas como a falta, a identidade e o que Lacan chamava de “o Outro”.
No centro da narrativa está o conceito coreano de In-Yun (인연), a ideia de que encontros entre duas pessoas nesta vida são determinados por milhares de camadas de interações em vidas passadas. Sob a ótica psicanalítica, podemos ler o In-Yun como os traços mnêmicos* e as marcas simbólicas que herdamos. Não se trata de destino místico, mas da forma como somos capturados pelo desejo do Outro e como certas figuras em nossa história deixam marcas indeléveis que buscamos ressignificar por toda uma vida e enquanto isso não acontecer, o sintoma pode ser uma resposta possível.
A infância na Coreia nos apresenta Nora ainda como Na Young. A separação abrupta pela migração para o Canadá não é apenas uma mudança geográfica; é um corte subjetivo. Para tornar-se Nora, Na Young precisou ser deixada para trás. Hae Sung permanece como a única testemunha viva dessa “Na Young” que já não existe mais. Ele torna-se, para Nora, o representante de um objeto perdido, uma parte de si mesma vinculada à sua língua materna, sua cultura original e sua infância.
Vinte e quatro anos depois, o reencontro em Nova York coloca a fantasia à prova da realidade. É aqui que entra o papel fundamental de Arthur, o marido. Ele não ocupa o lugar do “vilão”. Ele reconhece que Nora carrega um “outro mundo” dentro de si, um mundo onde ele não pode, e nunca irá entrar Arthur aprende um pouco de coreano para tentar se sentir menos distante desse mundo da sua esposa.
Neste contexto, Nora traz uma reflexão poderosa sobre a construção do seu relacionamento atual com Arthur. Ela utiliza a metáfora de duas árvores plantadas no mesmo vaso: quando colocadas juntas para crescer, suas raízes precisam se ajustar, se contorcer e se adaptar ao espaço limitado e à presença da outra.
Para a psicanálise, essa imagem ilustra perfeitamente a angústia e o trabalho da relação: as “brigas” e os ajustes não são sinais de fracasso, mas o esforço necessário de dois sujeitos que tentam acomodar seus desejos e histórias (suas raízes) em um espaço comum. É a renúncia de uma expansão solitária em favor de uma coexistência simbólica. Isso demonstra a maturidade de aceitar que o sujeito nunca é inteiramente do outro; há sempre uma parte de mistério, de ajuste e de falta.
O clímax do filme não é sobre quem Nora irá escolher, mas sobre o processo de luto. Ao se despedir de Hae Sung, Nora não está apenas dando adeus a um amigo de infância; ela está finalmente chorando a perda da menina Na Young e de todas as versões de sua vida que não se realizaram.
O desejo é movido pela falta. “Vidas Passadas” nos mostra que crescer e desejar implica, necessariamente, abrir mão de infinitas outras possibilidades. Aceitar esse “estreitamento” da realidade é o que nos permite viver o presente de forma autêntica. O filme ressoa porque toca em uma ferida da subjetividade: o fato de que somos feitos de encontros, desencontros e do constante trabalho de ajustar nossas raízes ao chão que escolhemos habitar.
*são as marcas psíquicas deixadas pelas experiências, como resíduos que formam a base da memória, especialmente as da primeira infância, que são cruciais, mas muitas vezes esquecidas (amnésia infantil) ou mascaradas por lembranças encobridoras.