Muitas vezes, busca-se na sociologia ou na filosofia contemporânea — em autores fundamentais como Judith Butler ou Paul B. Preciado — as bases para compreender as questões de gênero e sexualidade no século XXI. No entanto, é preciso afirmar: uma leitura atenta e implicada dos textos fundadores da psicanálise revela que Sigmund Freud e Jacques Lacan já ofereciam, em seus tempos, o respaldo teórico para uma clínica radicalmente inclusiva.
Na minha prática clínica, parto do princípio de que a psicanálise não é uma ferramenta de normatização, mas de escuta da singularidade.
Muito antes dos movimentos modernos de despatologização, Freud já sustentava uma posição ética corajosa. Em uma famosa carta de 1935, respondendo a uma mãe americana preocupada com a homossexualidade do filho, Freud foi categórico:
“A homossexualidade não é, certamente, uma vantagem, mas não é nada de que se envergonhar, não é um vício, não é uma degradação, e não pode ser classificada como uma doença.”
Freud não apenas consolou aquela mãe, mas marcou uma posição política e clínica: a psicanálise não serve para “consertar” o desejo, mas para permitir que o sujeito assuma a sua verdade singular. Esse movimento inaugural colocou a psicanálise, desde o início, na contramão do discurso médico higienista e excludente da época.
Avançando no ensino de Jacques Lacan, encontramos ferramentas ainda mais sofisticadas para pensar as transidentidades e as diversidades de gênero sem cair no preconceito.
No Seminário 20 (Mais, Ainda), Lacan opera uma virada fundamental. Ao desenvolver as fórmulas da sexuação, ele desatrela o sujeito da anatomia. Para Lacan, ser “homem” ou “mulher” não é uma questão biológica (ter este ou aquele órgão), mas uma posição lógica diante do gozo e da linguagem.
Como bem aponta a psicanalista Adela Gueller, é preciso questionar de que corpo a psicanálise se ocupa:
“Prefiro, no entanto, não ir por esse caminho porque, nesses argumentos, o pênis e a vagina ainda tomam como referência principal o corpo anatômico. Considero mais importante questionar de que corpo nós psicanalistas nos ocupamos. Já que ele é necessariamente singular e depende da linguagem. E singularizar é distinguir, separar, tirar fora, ou seja, é o contrário de generalizar” (Gueller, 2019, p. 97).
Não é o corpo da medicina, mas o corpo que “depende da linguagem”. E, como nos ensina Lacan, “singularizar é distinguir, separar… é o contrário de generalizar”.
Isso significa que a teoria lacaniana, quando lida com o devido rigor, já antecipava que:
- A anatomia não é o destino: O sujeito se constrói na linguagem.
- Não existe “A Mulher” (universal): O que existem são formas singulares de gozo.
- A transição é uma operação legítima: Se todo ser falante precisa “fazer-se um corpo” através do simbólico, as vivências trans não são desvios, mas soluções singulares e dignas de escuta.
Reconhecer a importância dos autores atuais é vital, mas voltar a Freud e Lacan nos permite ver que a psicanálise nunca foi — ou nunca deveria ter sido — uma prática de exclusão.
A aposta aqui se sustenta na escuta do inconsciente, que não tem gênero, mas tem desejo. O que se oferece aqui é um espaço onde a teoria clássica é manejada com a implicação necessária para acolher o sofrimento e as atualizações de cada sujeito, independentemente de como ele se nomeie.
Um processo de análise deve respeitar a sua singularidade, sustentada por um estudo sério de Freud e Lacan.