O tão esperado filme O Agente Secreto (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, transcende a narrativa de um thriller político ambientado em Recife no ano de 1977, mergulhando nas profundezas da memória, da culpa e da busca incessante pela verdade do Sujeito.Em um período de extrema repressão política, o filme espelha a repressão psíquica, trazendo à tona o que foi forçosamente jogado para o inconsciente.
O cerne da jornada do protagonista (Marcelo, interpretado por Wagner Moura) – sua obstinada busca pelo documento da mãe – pode ser lido sob a ótica da Psicanálise.Freud nos ensinou sobre a centralidade do complexo de Édipo e do desejo do sujeito estruturado em torno da figura materna e da interdição paterna (a Lei). A mãe, nesse sentido, não é apenas um laço afetivo, mas a porta de entrada para a constituição do sujeito. Buscar o documento da mãe é, simbolicamente, buscar a origem, a fundação de sua identidade e a verdade sobre o seu lugar na história e na família, algo que a Ditadura (o Grande Outro opressor) tentou apagar, distorcer e impedir.
Para Lacan, essa busca pode ser articulada com o conceito do Nome-do-Pai e do desejo do Outro. O documento seria um significante mestre (S1), uma letra capaz de nomear a falta constitutiva do sujeito e dar sentido à sua existência, que se encontra dispersa e em crise devido ao trauma e à paranoia de perseguição. Marcelo busca uma reparação simbólica para um trauma que lhe atravessa.
Outro elemento crucial é a figura das jornalistas que se dedicam a ouvir os arquivos de pessoas perseguidas pela ditadura, e uma delas (Flávia) vai de encontro com o filho de Marcelo (Fernando), também interpretado por Wagner Moura (em uma possível interconexão de papéis e possíveis destinos).
A jornalista Flávia (Laura Lufési), cumpre uma função análoga à de uma analista e de testemunha da história. Ela não apenas lê, mas ouve os rastros do Real traumático.Na Psicanálise, o Real é aquilo que escapa à simbolização, o que não pode ser dito completamente, o horror irredutível da ditadura. Ao escutar os arquivos, ela tenta simbolizar o indizível, dar voz aos mortos e reescrever uma narrativa roubada pelo governo durante o período ditatorial.
O fato de Wagner Moura interpretar tanto o protagonista Marcelo quanto o filho do jornalista (Fernando), evoca o conceito freudiano de Compulsão à Repetição (amplamente trabalhado em “Além do Princípio do Prazer” de 1920). O trauma exige ser repetido para, paradoxalmente, ser elaborado¹. A repetição do ator em diferentes papéis, com destinos ligados ao recalcamento, sugere que o trauma da ditadura é uma ferida aberta que se manifesta e se repete na história de diferentes pessoas. O Agente Secreto é um convite à reflexão sobre como o contexto sociopolítico – a opressão, o segredo, a ameaça constante – penetra o universo psíquico, moldando identidades fragmentadas, paranoicas e eternamente em busca de sua verdade.O nome do filme, é uma provocação: o personagem de Wagner Moura não é um agente infiltrado a serviço de ninguém, mas um homem comum tentando sobreviver a um sistema que o persegue.
¹citado no texto Nachträglichkeit em Freud e Lacan – O Passado que só Existe quando o Futuro o Retorna, nesse site.