Jihad e Psicanálise: Entre a Luta Interior (Jihad al-Akbar) e o Mal-Estar na Cultura

O termo Jihad (جهاد), frequentemente distorcido, carrega um significado muito mais profundo e complexo do que a simples ideia de “guerra santa”. Para o mundo islâmico, o conceito central é o de “luta” ou “esforço”. No entanto, quando olhamos para a distinção fundamental entre a Jihad Menor (o conflito externo) e a Jihad Maior (Jihad al-Akbar), é nesta última que a Psicanálise encontra um ponto para reflexão.

A Jihad al-Akbar é a luta mais essencial e implacável para todo muçulmano (segundo o Alcorão): o esforço interior contra as próprias inclinações destrutivas, vícios e a tirania do Eu/Alma/Ego* (nafs). É a batalha diária para sobrepujar a pulsão de morte em si mesmo e agir de acordo com a ética.

O que é a neurose senão o resultado de uma luta interna, onde o sujeito é dominado por conflitos inconscientes, culpas e repetições estruturalmente?

Uma vez que a Jihad al-Akbar se apresenta como A ética religiosa da superação das próprias paixões desordenadas. Na psicanálise, a ética do desejo e do inconsciente, que busca a travessia da fantasia para que o sujeito possa assumir sua falta e lidar com o próprio desejo.

Sigmund Freud, no seu ensaio O Mal-Estar na Civilização (ou cultura), aborda a tensão irredutível entre as exigências pulsionais do indivíduo e as restrições da sociedade. Ele descreve a agressividade inata do ser humano, essa tendência a agredir o próximo, como um dos maiores entraves à cultura.

Grupos que instrumentalizam o termo Jihad para fins de extremismo e violência desvirtuam a luta interior (a Jihad al-Akbar) e a projetam de forma maciça para o exterior, transformando o “esforço” ético numa descarga pulsional destrutiva.

O ato extremista, muitas vezes, é a manifestação que exige a eliminação do diferente, uma tentativa desesperada de negar a própria castração e a Lei (como imperativos do supereu). O extremismo, sob essa luz, surge não do excesso de fé, mas por não suportar a falta e a complexidade diante do Outro.

É vital destacar aqui que a psicanálise não julga a crença, mas investiga as estruturas subjetivas que levam o indivíduo a lidar com o conflito. Ao invés de buscar a aniquilação do inimigo externo, a análise convida o sujeito a reconhecer e trabalhar com o “inimigo” que reside em si – um movimento análogo e convergente com o que espelha o esforço dentro de uma Jihad Maior.A Jihad Maior e a Psicanálise se encontram no reconhecimento de que a luta mais significativa é sempre aquela travada no campo da subjetividade.