O filme Hamnet, dirigido pela aclamada cineasta chinesa Chloé Zhao, chegou aos cinemas não apenas como uma peça histórica, mas como um fenômeno emocional que já rendeu o Globo de Ouro à sua protagonista. Com uma estética que privilegia o silêncio e a natureza, Zhao traduz visualmente a dor da perda. Mas, para além da tragédia da peste, o filme nos convoca a uma pergunta psicanalítica: como o luto se transforma em imortalidade?
Uma das maiores curiosidades que cercam a obra é a similaridade entre os nomes. Na Inglaterra do século XVI, Hamnet e Hamlet eram, na verdade, o mesmo nome, usados de forma intercambiável em registros paroquiais.
O filho de William Shakespeare chamava-se Hamnet. Ele morreu aos 11 anos, vítima da peste. Anos depois, o pai escreveu uma das maiores tragédias da humanidade: Hamlet. Para a psicanálise, essa “quase-identidade” entre o filho morto e o príncipe é o exemplo máximo de sublimação. Shakespeare não escreveu apenas uma peça; ele deu ao filho uma sobrevida simbólica, transformando o “fantasma” do desamparo em arte universal.
No filme, a peste bubônica é o elemento traumático que invade o lar e rouba o futuro. Curiosamente, a psicanálise também já foi chamada de “peste”, mas por outro motivo. Em 1909, ao avistar a Estátua da Liberdade, Sigmund Freud teria dito:
“Não sabem eles que lhes trazemos a peste?”
Freud se referia à Psicanálise como algo que “infectaria” a moralidade rígida da época com a verdade do inconsciente. Enquanto a peste em Hamnet traz o silêncio da morte física, a “peste” freudiana traz o barulho das verdades que escondemos de nós mesmos. Ambas, porém, alteram o curso da vida de forma irreversível.
A direção de Chloé Zhao é fundamental para o impacto do filme. Sendo uma diretora chinesa com um olhar aguçado para a vulnerabilidade humana, ela evita o melodrama óbvio. Sua câmera foca no desamparo originário (Hilflosigkeit) aquele sentimento de estar exposto ao mundo sem proteção, algo que Freud descreveu como a base da nossa necessidade de cuidado e religião.
A protagonista (Agnes) vive um luto visceral. Ela sente a perda antes mesmo de ela acontecer, uma conexão quase instintiva que a psicanálise estuda como o vínculo primário com o objeto.
Zhao filma a vida que continua apesar da morte. Esse contraste faz com que o espectador sinta a pequenez humana diante do destino (o Ananke freudiano*).
Quando o público entende que “Hamnet” é a semente de “Hamlet”, ocorre uma reparação simbólica. O filme nos emociona porque nos dá esperança de que nossa dor também possa ser transformada em algo significativo.
Hamnet nos ensina que o luto não é um processo com data para acabar, mas uma reconfiguração do próprio Eu. Freud, em “Luto e Melancolia”, explica que no luto o mundo se torna pobre; mas através da arte e da análise, podemos dar um novo lugar a quem partiu.
O filme é um convite para olharmos para nossas próprias “pestes” e perguntar: o que estamos fazendo com aquilo que perdemos?
Ananke é uma palavra de origem grega (em grego antigo: Ἀνάγκη) que significa “necessidade” ou “destino”. O termo é utilizado em diversos contextos, incluindo mitologia, filosofia e psicologia. Ananke é uma deusa primordial que personifica a necessidade inevitável e o destino. Ela é considerada uma das forças mais poderosas do universo, controlando até mesmo os deuses olímpicos, e é frequentemente associada ao conceito de uma realidade inalterável e despojada de ilusões. O conceito de Ananke foi explorado por Sigmund Freud, que o descreveu como a força da realidade que confronta o ser humano com a inevitabilidade, incluindo a própria mortalidade. Trata-se do estabelecimento de uma realidade que não pode ser evitada.