O Mal-Estar, a Pulsão e a Passagem ao Ato em Relatos Selvagens (2014)

O que separa o cidadão comum da barbárie absoluta? Em Relatos Selvagens (2014), dirigido pelo argentino Damián Szifron, a resposta parece ser: muito pouco. Através de uma antologia de seis curtas-metragens independentes, o filme nos convida a testemunhar situações cotidianas, uma multa de trânsito injusta, uma briga de estrada, uma traição descoberta no dia do casamento que escalam rapidamente para níveis absurdos de violência e destruição.

Mais do que uma comédia com humor ácido, a obra é um tratado visual sobre a fragilidade da nossa estrutura psíquica e social. À luz da psicanálise, o filme expõe as rachaduras do simbólico e nos mostra, de forma crua, o que acontece quando a palavra falha e a pulsão toma as rédeas.

Para entendermos a escalada de violência nos personagens de Szifron, precisamos recorrer ao texto fundamental de Sigmund Freud, O Mal-estar na Civilização (1930). Freud postula que viver em sociedade exige um sacrifício altíssimo: a renúncia da satisfação direta das nossas pulsões agressivas e sexuais. Nós trocamos a liberdade libidinal por segurança e ordem civilizatória, submetendo-nos às leis, à burocracia e às normas de etiqueta.

O grande problema é que essa agressividade reprimida não desaparece; ela fica à espreita. Em Relatos Selvagens, os protagonistas são pessoas comuns que, submetidas a uma pressão contínua, o peso do laço social, representado por burocratas surdos, motoristas arrogantes ou estruturas de poder corruptas, chegam ao seu limite. A explosão de fúria que vemos na tela é o retorno violento daquilo que foi recalcado em nome da “boa convivência”.

Em Jacques Lacan, encontramos dois conceitos cruciais para ler as ações dos personagens: o acting out (passagem ao ato), a passagem ao ato ocorre quando o sujeito se depara com um beco sem saída no nível do Simbólico (a linguagem, as leis, a argumentação racional perdem o sentido) e despenca no Real. Ele “cai” da cena. O caso do engenheiro “Bombita” (Ricardo Darín) é paradigmático. Diante de um sistema de trânsito surdo e automatizado que o ignora como sujeito, a argumentação se torna inútil. Ao explodir o guincho, ele não está mais tentando se comunicar com o sistema; ele rompe com a ordem social e passa ao ato de forma literal e destrutiva.

O último segmento do filme, que se passa em uma festa de casamento, é talvez a mais trágica e brilhante ilustração do encontro com o Real. A descoberta da traição despedaça instantaneamente a ilusão imaginária do “felizes para sempre”. A noiva entra em um frenesi de vingança e gozo (aquela satisfação excessiva, dolorosa e paradoxal).

Ela destrói a festa, a imagem pública, o pacto de aparências. No entanto, é apenas após a destruição completa das máscaras sociais e do falso moralismo que o casal, exausto, ferido e coberto de sangue e bolo, consegue se encontrar na mais crua verdade de seus desejos. O pacto civilizatório da festa desmorona para dar lugar a um encontro autêntico, ainda que atravessado pela pulsão de morte.

Relatos Selvagens nos fascina porque, intimamente, todos nós reconhecemos essa fúria. O filme nos permite vivenciar a catarse de ver o sujeito comum quebrando as regras opressivas que somos forçados a engolir todos os dias. No entanto, fora da tela do cinema, a passagem ao ato tem consequências reais e devastadoras.

A clínica psicanalítica existe justamente para que a tensão, o mal-estar e a angústia encontrem um destino diferente da pura destruição. É o espaço onde se aposta na palavra para dar contorno àquilo que ameaça transbordar.