A Falência do Outro: Freud, Lacan e a Revolta em “Antivist” – Bring Me The Horizon

Lançado em 2013, o álbum Sempiternal é o marco da “cura” e da “crise” para o Bring Me The Horizon. O título, que remete ao conceito de algo eterno, imortal, surge no rastro da reabilitação de Oli Sykes. A estética do disco, centrada na “Flor da Vida” (geometria sagrada), sugere uma busca por ordem no caos, mas é na faixa “Antivist” que essa ordem se estilhaça.

O álbum foi produzido por Terry Date. A entrada de Jordan Fish trouxe camadas eletrônicas que representam a fragmentação da psique moderna. A Flor da Vida na capa pode ser lida como uma tentativa de Sinthome em Lacan: um arranjo simbólico para segurar a psicose ou o colapso subjetivo. Rumores dizem que a música foca no ex-guitarrista Jona Weinhofen. Isso ilustra a projeção para evitar encarar a própria falha. O grito “Middle fingers up” funciona como uma catarse coletiva, uma descarga da Pulsão de Morte (Freud) em um ambiente controlado (o show).

Existe um diálogo intertextual sombrio entre gerações aqui:

Pink Floyd – Hey You* (1979): “Together we stand, divided we fall” (Juntos resistimos, divididos caímos). É o apelo de Roger Waters pela conexão humana frente ao muro da alienação.

BMTH – Antivist (2013): “United we’ll fail… Divided we’ll fall”. Sykes subverte o clichê. Para ele, não há porto seguro: a união é hipócrita e a divisão é fatal.

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud explica que, ao se unir a um grupo, o indivíduo abdica do seu “Ideal do Eu” em favor de um líder ou de uma ideologia.

Em “Antivist”, a crítica ao “ativismo de poltrona” (slacktivism) ressoa com o conceito freudiano de Narcisismo das Pequenas Diferenças. A agressividade da letra, “Get off your screens and onto the streets”, denuncia as pessoas que usam causas sociais apenas para inflar o próprio Eu(ego), sem qualquer renúncia pulsional real pela civilização. A união (“United we’ll fail”) é vista por Freud como uma massa cega que, em vez de construir, apenas opera em mera projeção.

O Outro representa a ordem social, a lei e a linguagem. Em Sempiternal, percebemos um sujeito que descobriu que o Outro não existe (ou é furado).

Quando Sykes grita sobre falhar tanto unidos quanto divididos, ele está diante do Real. O Real é aquilo que não pode ser simbolizado, o trauma que resta quando as palavras (as promessas de “união” de Pink Floyd) perdem o sentido.

O icônico refrão de “Antivist” é um ato de separação. Se o sujeito não encontra lugar no Simbólico (na sociedade), ele recorre à agressividade como forma de marcar sua existência diante da inconsistência do Outro.

O álbum não é apenas barulho; é o registro de um artista tentando se reconstruir enquanto percebe que as velhas fórmulas de união (como as de Pink Floyd) não dão mais conta da angústia do século atual. “Antivist” é o grito de quem percebeu que a rede social é o novo “muro”, e que a verdadeira revolução exige atravessar a própria fantasia narcísica.