Além da Alma: A Tradução de “Seele” na Obra de Freud

Para quem estuda a teoria de Sigmund Freud, os textos originais em alemão revelam nuances que se perdem nas traduções para o português ou até mesmo para o inglês. E o termo que será abordado nesse texto é o termo “Seele”

Na língua alemã, “Seele” tem um sentido amplo, que engloba as dimensões do ser:

  1. Alma (Soul): No sentido filosófico, religioso ou poético.
  2. Psique/Mente (Mind/Psyche): O conjunto das atividades e processos mentais.
  3. Coração/Essência: O núcleo mais profundo do ser.

Quando Freud usava o termo “Seele”, ele frequentemente se referia à totalidade da vida mental do indivíduo, aquilo que a Psicanálise busca investigar. A grande dificuldade surge ao traduzir “Seele” para o português e, principalmente, para o inglês².

As traduções mais comuns e aceitas no português são “Psique” ou “Mente”. Essa escolha visa manter o rigor conceitual da Psicanálise, desvinculando-o de conotações religiosas ou metafísicas, frequentemente associadas à tradução literal de “Seele” como “Alma”. Clinicamente, a Psicanálise interpreta “Seele” como o sistema onde operam o Id(Isso), Ego (Eu) e Superego (Supereu).

O conceito de “Seelenleben” refere-se à Vida Psíquica, ou seja, o conjunto das manifestações, conflitos e operações do aparelho. Por sua vez, “Seelenapparat” é traduzido como Aparelho Psíquico, designando o modelo topográfico e estrutural da mente.

A opção por “Psique” na tradução brasileira busca neutralidade e tecnicidade, enquanto evita-se a palavra “Alma” para manter o caráter científico e a ênfase no sistema funcional da mente que Freud propôs.

O Problema da “Alma” (Soul) é que para os tradutores geralmente evitam traduzir “Seele” diretamente como “Alma” para o contexto psicanalítico, pois isso remeteria a conotações religiosas ou metafísicas. Freud, apesar de usar o termo, buscava uma abordagem científica para o funcionamento mental, o que tornava “Psique” (do grego, mais neutro e técnico) a opção preferencial.

Em inglês, a tradução mais influente é a da Standard Edition (Edição Standard), onde o termo “Ich” (que significa “Eu” ou “Ego”) e “Seele” foram tratados de maneiras que enfatizaram o aspecto da consciência e da adaptação.

A tradução mais “psicológica” de “Seele” para “Mente” (em inglês, mind) contribuiu para a ascensão da Psicologia do Ego nos Estados Unidos. Críticos como Jacques Lacan, ao retornarem aos textos originais em alemão, argumentam que essa tradução obscureceu o verdadeiro radicalismo de Freud sobre a primazia do inconsciente e do sujeito (e não apenas de um “ego” adaptativo).

Ao compreendermos a fluidez de “Seele”, evitamos a rigidez de conceber o “aparelho psíquico” apenas como um mero mecanismo e o enxergamos como um sistema vivo e complexo com suas pulsões e representações.Na clínica exige-se o mergulho na experiência subjetiva total, na “Vida Psíquica” (Seelenleben), e não apenas na mente consciente. Trata-se de acolher o sujeito em sua dimensão mais profunda e, por vezes, mais conflituosa — aquela que Freud chamava de “Seele”.


¹ “(…)na Psicanálise, amamos ficar em contato com o modo de pensar popular e preferimos tornar os seus conceitos cientificamente úteis, em vez de descartá-los. Não há nenhum mérito nisso, precisamos proceder dessa forma, porque as nossas doutrinas precisam ser entendidas pelos nossos pacientes, que muitas vezes são muito inteligentes, mas nem sempre são eruditos.” Afirma Freud em “A questão da análise leiga de 1926.

² Vale a pena ressaltar como o termo foi traduzido em inglês uma vez que uma das primeiras traduções da obra de Freud que chegou ao Brasil não foi direta do alemão e sim a partir de uma tradução feita por meio do inglês por James Strachey e somente em 2009 oficialmente chega ao Brasil a primeira tradução direto do alemão das öbras completas organizada por Paulo César de Souza, iniciada em 2009 pela Companhia das Letras