Em Anticristo (2009), do polêmico diretor Lars von Trier, acompanhamos como a tentativa de racionalizar o sofrimento extremo ignora a dimensão do Real, aquilo que resiste a toda e qualquer tentativa de simbolização e linguagem.
A trama psicológica se desenrola após a morte traumática do filho de um casal. O personagem de Willem Dafoe, um terapeuta cognitivo-comportamental, decide assumir o tratamento psicológico da própria esposa (Charlotte Gainsbourg), retirando-a da medicação (de forma abrupta) e levando-a para uma cabana isolada na floresta, um lugar ironicamente chamado apenas de “Éden”.
O personagem comete uma transgressão ética e clínica fatal. Ao tentar ocupar o lugar de terapeuta da própria esposa, ele ignora a impossibilidade da transferência nesse contexto.
Operando estritamente sob a lógica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e munido de gráficos, ele utiliza a ferramenta da “Pirâmide do Medo” (hierarquia de exposição ou hierarquia de ansiedade) para tentar domesticar um afeto que resiste à domesticação: a angústia. Ele tenta lidar com o luto materno através de uma lógica imaginária, tratando o sofrimento da esposa como uma “distorção cognitiva” a ser corrigida.
Contudo, ele falha em perceber que a dor dela não está no campo do sentido ou da aprendizagem, mas no campo do Real, o trauma cru, sem mediação, que não pode ser simbolizado. Essa postura ilustra de forma mais ampla a prepotência da razão masculina diante da feminilidade. Ele tenta adestrar o que não consegue escutar, diagnosticando e treinando, em vez de acolher a verdade subjetiva da esposa.
Anticristo foi escrito enquanto Lars von Trier enfrentava uma depressão profunda. O roteiro serviu como um exercício terapêutico, uma tentativa desesperada de se reconectar com o mundo e dar contorno à sua própria angústia. O filme inaugura a famosa “Trilogia da Depressão” de Von Trier, completada por Melancolia (2011) e Ninfomaníaca (2013). São três obras que tentam, cada uma à sua maneira, simbolizar o sofrimento.
A fragilidade do diretor manifestou-se fisicamente no set. Debilitado pela medicação, ele dependeu inteiramente do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle, cujo trabalho impecável lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor de Fotografia no European Film Awards de 2009. Já o papel da protagonista, coube a Charlotte Gainsbourg. Sua entrega avassaladora a consagrou com o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes.
A narrativa é pontuada pela aparição de três animais que compõem uma constelação mítica criada pelo diretor, que também assina o roteiro do filme. Eles são chamados de “Os Três Mendigos” e anunciam que “alguém deve morrer”. Sob a ótica psicanalítica, podem ser lidos como manifestações da pulsão de morte e do retorno do recalcado:
- A Corça (A Dor): Aparece carregando um feto natimorto ainda pendurado ao corpo, simbolizando o luto não elaborado e a culpa materna esmagadora que permeia a protagonista.
- O Corvo (O Desespero): Representação da memória traumática que se recusa a ir embora; o olhar que vigia e a insistência do pensamento obsessivo e invasivo.
- A Raposa (O Caos): A imagem mais icônica do longa. Em uma cena perturbadora, a raposa se autodevora e profere a frase “Chaos reigns” (“O caos reina”). O próprio Willem Dafoe dublou a raposa, com uma voz gutural que remete à desintegração psíquica.
A violência gráfica e sexual de Anticristo (onde Von Trier utilizou dublês da indústria pornográfica para essas cenas) não busca o erotismo, mas o realismo anatômico que choca e causa repulsa. A intenção é tirar o espectador da passividade e confrontá-lo com o unheimlich freudiano (o inquietante, o estranho, o infamiliar).
Um ponto crucial da trama é a tese acadêmica que a personagem escrevia sobre a perseguição histórica às mulheres. No caderno dela, lemos o termo “Gynocide” (Ginocídio), muitas vezes traduzido como “Feminicídio”.
O Femigenocídio é um conceito jurídico-social que analisa a morte sistemática de mulheres (do grego gyne) sob a perspectiva de falhas ou da conivência do Estado (ou instituições) na gestão e proteção da vida feminina.
No entanto, o filme traz uma revelação perturbadora que altera radicalmente a compreensão do “luto” da protagonista: a descoberta da autópsia da criança, que indica uma deformidade óssea nos pés. Ao analisar um álbum de fotos, o marido percebe que ela, de forma sistemática e proposital, calçava os sapatos do menino nos pés trocados, submetendo-o a uma mutilação lenta. Além disso, um flashback revela que ela observou o filho caminhar em direção à janela instantes antes da queda fatal, mas nada fez para impedi-lo.
Na clínica psicanalítica, sabemos que o desejo materno é profundamente ambivalente e não exclui a hostilidade. No filme, a personagem parece ter sido engolida pelo próprio objeto de sua pesquisa. Ao estudar as justificativas da Inquisição de que “a natureza da mulher é inerentemente maligna”, ela entra em um delírio onde toma essa premissa para si de forma psicótica. A agressão ao filho revela que sua angústia não advém apenas da dor da perda, mas do peso esmagador da culpa por um desejo de morte inconsciente, a pulsão de morte, que se concretizou.
O filme culmina com a protagonista sendo estrangulada e queimada em uma fogueira, referência direta à Inquisição e à caça às bruxas (séculos XVI e XVII). O longa ecoa essa história ao mostrar a mulher sendo punida por uma “natureza” que o homem teme e tenta controlar, seja pela força da religião no passado, seja pela frieza da racionalidade clínica no presente.
Anticristo nos ensina, de forma brutal, que há dores que a pedagogização e o psicologismo rasos não alcançam. Ao tentar ocupar o lugar de mestre e terapeuta de sua esposa, usando a racionalidade para silenciar o sintoma, o protagonista precipita a tragédia.
Quantas vezes, dentro ou fora do consultório psicanalítico, não repetimos o mesmo gesto de calar o sofrimento do outro com nossas próprias certezas teóricas? O filme é um lembrete incômodo para analistas e pacientes: quando a verdadeira escuta falha e tenta-se domar o insimbolizável, o Caos, inevitavelmente, reina.
William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.