Stage Four (2016), da banda Touché Amoré, não é um disco de pós-hardcore qualquer. É um diário clínico de luto. O vocalista Jeremy Bolm escreveu o álbum inteiro depois da morte de sua mãe por câncer, “estágio quatro” é o grau mais avançado da doença, e o título carrega esse peso.
“Flowers and You”, faixa que abre o álbum, ocupa um lugar particular nessa travessia. Diferente de músicas estruturadas apenas na urgência, ela tem uma arquitetura confessional, como se o filho estivesse, finalmente, dizendo em voz alta aquilo que ficou calado durante os anos de cuidado. Há algo incomum na composição de Bolm: ela descreve as operações psíquicas diante da perda com precisão.
A faixa começa com uma confissão sobre as defesas do Eu:
“I’m heartsick and well rehearsed / Highly decorated with a badge that reads ‘it could be worse'”
O eu lírico se percebe “bem ensaiado”, há uma performance em andamento, uma armadura social construída para comunicar: “estou bem, poderia ser pior”. O distintivo (badge) é irônico: é uma medalha conquistada pela habilidade de disfarçar a dor, não de superá-la.
“So prideful I choose to live in disguise / With a levee set for my heavy eyes”
A contenção das lágrimas não é acidental, é ativa, deliberada. Um dique erguido contra o peso dos olhos. O indivíduo escolhe viver mascarado. Aqui, Freud nos interessa diretamente: trata-se do mecanismo de recalque (Verdrängung) em plena operação, não uma ausência de sentimento, mas um esforço ativo e exaustivo de manter o afeto fora da consciência.
O refrão da música é o núcleo afetivo da obra:
“I apologize for the grief / When you’d refuse to eat / I didn’t know just what to say / While watching you wither away”
“Assistir alguém definhar”, essa é a experiência brutal do cuidador diante de uma doença terminal. E o que o filho faz diante disso? Ele pede desculpas. Mas a quem? À mãe já morta, em um ato de endereçamento retroativo.
Em Luto e Melancolia (1917), Freud distingue dois processos. No luto, o Eu se relaciona com a perda do objeto externo, o trabalho de luto implica um desinvestimento progressivo, uma retirada da libido antes depositada sobre a figura perdida. Na melancolia, o processo é mais obscuro: o objeto perdido é introjetado, e a hostilidade que seria sentida por ele é voltada contra o próprio Eu. Daí a culpa avassaladora que não encontra repouso.
“It was time this whole time / We can’t undo or rewind… But now I understand just what a fool I’d been / No matter what the context, I won’t have that time again”
O tempo que se revela apenas depois reflete o conceito de après-coup (Nachträglichkeit, na formulação freudiana relida por Lacan): a retroatividade do sentido. O acontecimento só adquire seu peso traumático depois, quando há estrutura psíquica para reconhecê-lo como perda. “Era tempo este tempo todo”, a perda ressignifica o passado, mostrando o que havia ali e não foi visto. O entendimento não redime; ele é simultaneamente ganho e punição.
Na segunda metade, a música apresenta uma tentativa de racionalização:
“I took inventory of what I took for granted / And I ended up with more than I imagined / I’ve kept it bottled up and to myself in the cellar / Kept for my everchanging mental health”
O inventário, palavra contábil, revela a tentativa do Eu de fazer sentido da falta através da catalogação. O resultado é paradoxal: ao contar o que restou, percebe-se que a perda é insuportavelmente grande.
A adega surge como a metáfora primorosa do inconsciente: o que se guarda ali, não se vê mas fermenta. “Saúde mental em constante mudança” é de uma honestidade ímpar: não há estado fixo. O indivíduo sabe que o que engarrafou continuará afetando sua vida de formas imprevisíveis.
Touché Amoré não está fazendo terapia em público, está fazendo arte. Mas a arte, quando feita com honestidade radical, acaba tocando nos mesmos nós que a clínica visa escutar.
“Flowers and You” é um mapa de defesas psíquicas: recalque, evitação, racionalização (o inventário) e culpa melancólica. O que a psicanálise oferece é um espaço ético para que aquilo que ficou na adega possa vir à tona. A clínica não resolve a perda, porque o luto não se “cura”, mas possibilita que ele seja, afinal, vivido e integrado.
William Pereira Couto Junior Psicólogo e Psicanalista | CRP 06/120471 Graduado pela PUC-SP e Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP-USP.