O filme Sirāt (2025), dirigido pelo cineasta espanhol Óliver Laxe, oferece uma experiência cinematográfica que beira o insuportável e o sublime. Acompanhamos Luis (Sergi López) e seu filho Esteban em uma busca angustiante pelo deserto do sul do Marrocos. Eles procuram Marina, a filha e irmã que desapareceu meses antes em uma rave. Tendo como pano de fundo um mundo pré-apocalíptico e fraturado pela guerra, Sirat não é apenas um road movie ou um filme de sobrevivência; é uma verdadeira alegoria do sujeito diante de sua própria angústia. A obra revela como o ser humano lida com o limite, a falta e a força destrutiva pulsional.
O “Real” é aquilo que escapa à linguagem, o que não pode ser simbolizado ou domesticado pela fantasia; é o encontro traumático com o indizível. Em Sirat, o deserto marroquino e a guerra que assombra os personagens operam exatamente como a presentificação desse Real. Não há regras claras de civilização (o Simbólico colapsou), apenas a aridez iminente, o perigo dos campos minados e um horizonte infinito que ameaça engolir o sujeito.
A jornada de Luis e Esteban não é apenas geográfica. Atravessar esse deserto é confrontar a nudez da existência quando todas as garantias caem por terra. A busca incessante por Marina funciona como a busca pelo objeto a — a causa do desejo, aquele fragmento estruturalmente faltante que movimenta o sujeito, mas que, paradoxalmente, nunca pode ser plenamente alcançado.
Um dos contrastes mais brilhantes de Sirat é a presença das raves no meio do nada, impulsionadas pela batida repetitiva da música eletrônica enquanto o mundo ao redor desmorona. Por que dançar no limiar do apocalipse?
Podemos ler essa dança extenuante sob a ótica da compulsão à repetição e da pulsão de morte. A exaustão do corpo dos ravers não busca o prazer, mas o gozo (jouissance) no sentido lacaniano: uma satisfação paradoxal, excessiva e dolorosa que leva o sujeito ao seu limite absoluto. As caixas de som empilhadas na areia e o transe coletivo funcionam como um ritual de expurgo de traumas que não podem ser nomeados. É a tentativa do sujeito de encontrar um contorno rítmico temporário frente à desintegração total do mundo neurótico singular de cada sujeito.
O próprio título do filme carrega a chave para a decifração da obra. Na tradição islâmica, Sirāt é uma ponte estreita, fina como o fio de uma navalha, que leva ao paraíso. Na travessia analítica, podemos associar essa ponte ao doloroso processo de análise.
O final do filme, deliberadamente ambíguo e brutal, não oferece a redenção clássica. Atravessar o campo minado e continuar caminhando exige um corte, uma perda irrecuperável. Assumir a própria falta, simplesmente aceitar a castração que é a condição fundamental para que se possa continuar desejando. Os sobreviventes em Sirat compreendem que ninguém sai ileso do deserto da vida. Uma parte de si inevitavelmente fica pelo caminho para que a travessia prossiga.
Sirat convida o espectador a uma experiência com algo da ordem do limite, espelhando a própria jornada de um percurso psicanalítico: o atravessamento das fantasias ilusórias, o encontro com o Real e a retificação subjetiva diante da perda. É um filme que não entrega respostas prontas, mas que exige que o espectador se responsabilize por sustentar sua própria angústia ao encarar esse filme.