A Compulsão à Repetição e o Gozo Mortífero em Réquiem para um Sonho (2000)

Lançado no ano 2000 e dirigido por Darren Aronofsky (mesmo diretor de Baleia e Mãe!), Réquiem para um Sonho não é apenas um filme sobre o vício em drogas; é um retrato devastador do colapso psíquico humano e mesmo sendo um filme de mais de 26 anos sua narrativa ainda dialoga com a nossa contemporaneidade. O filme nos mostra como a busca desenfreada por preencher um vazio interno pode nos levar à destruição.

Em sua obra Além do Princípio do Prazer (1920), Freud introduz o conceito de pulsão de morte e a compulsão à repetição. A lógica freudiana aponta que nós temos uma tendência inconsciente de repetir situações, experiências e traumas, mesmo que causem sofrimento profundo.

No filme, o vício não é sustentado pela busca da felicidade, mas por um circuito fechado onde o sujeito se aprisiona. A repetição do ato, seja injetar heroína ou tomar pílulas de emagrecimento, visa anestesiar a angústia de existir, mas acaba nos colocando diante da própria morte. O alívio temporário exige doses cada vez maiores, transformando a tentativa de “sobreviver” à dor em um ato literal e escancarado de autodestruição.

Para Jacques Lacan, o prazer tem um limite e quando ultrapassamos esse limite, entramos no campo do gozo (jouissance). O gozo lacaniano não é alegria; é uma satisfação paradoxal, um excesso que envolve sofrimento.

O gozo mortífero é aquele que não tem freios. Ele exige tudo do sujeito, corroendo seu corpo, sua moral e seus laços sociais. Em Réquiem para um Sonho, vemos o gozo mortífero nitidamente: os personagens são devorados por aquilo que acreditavam que o salvariam do enfrentamento da falta.

O filme ilustra esse percurso através de quatro personagens, cada um capturado por uma faceta diferente do gozo mortífero:

  • Sara Goldfarb: A solidão e o envelhecimento empurram Sara para uma obsessão em participar de um programa de televisão e caber em seu antigo vestido vermelho. Seu vício em anfetaminas é, no fundo, uma tentativa desesperada de ser vista e amada. O gozo mortífero a consome através da psicose desencadeada por esse consumo desenfreado, desconectando-a da realidade até culminar na perda total de sua subjetividade em um hospital psiquiátrico.
  • Harry Goldfarb: Harry busca na heroína e no tráfico uma fantasia de poder e sucesso rápido. A droga funciona como um escudo contra o fracasso de sua vida e a incapacidade de lidar com a realidade. A repetição do uso o leva à negação literal da podridão de seu próprio corpo. A amputação de seu braço é a metáfora psicanalítica perfeita da castração e do corte irreversível que o gozo excessivo pode provocar no sujeito.
  • Marion Silver: Marion começa como uma jovem artista com aspirações e desejos próprios. No entanto, à medida que a falta da droga se torna insuportável, seu desejo desvanece e ela se transforma em um mero objeto. O clímax de sua tragédia é a submissão a humilhações extremas em troca de drogas, ilustrando como o vício aniquila o sujeito desejante, reduzindo-o a um objeto de gozo do Outro.
  • Tyrone C. Love: Por trás da fachada de traficante durão, Tyrone é assombrado pela memória idealizada de sua mãe. A droga, para ele, é uma tentativa de retornar a um estado de completude infantil, um útero protetor onde não há dor. A ironia trágica da compulsão à repetição é que, ao buscar esse colo imaginário, ele termina encolhido em posição fetal em uma cama de prisão, isolado de tudo e de todos.

Réquiem para um Sonho escancara que o vício não é meramente uma falha moral ou química, mas um sintoma estrutural diante de uma angústia. Aqui compreendemos que quando o sujeito não consegue elaborar suas faltas e traumas através da palavra, ele pode atuar no corpo através da repetição e do gozo mortífero.