O álbum Neon Ballroom, lançado em 1999, é o registro fonográfico de um artista em pleno embate com seu inconsciente. No centro (e na abertura) dessa obra está “Emotion Sickness”, uma faixa de seis minutos de pura catarse. Para além do peso das guitarras, o que encontramos é o peso do Real, aquilo que não pode ser dito, apenas sentido como um mal-estar avassalador.
Antes de mergulharmos na letra, precisamos entender o terreno que acerca a obra:
Daniel Johns escreveu a maioria das canções em um estado de isolamento profundo, sofrendo de anorexia nervosa e depressão maior. Vemos aqui a sublimação: para Freud, a sublimação é um destino da pulsão onde a energia (que originalmente buscaria uma satisfação sexual ou agressiva direta) é redirecionada para fins socialmente valorizados, como a arte, a ciência ou a filosofia causando uma satisfação sempre parcial (jamais completa).
A participação de David Helfgott no piano não é meramente técnica. Helfgott, que viveu décadas entre o gênio e o colapso mental, traz para a música uma sonoridade fragmentada, que mimetiza a desorganização do pensamento na crise de angústia.
“Emotion Sickness” é um trocadilho com motion sickness (enjoo de movimento). Sugere que o sujeito está “enjoado” da própria existência emocional, intoxicado pelos próprios afetos.
Durante a música escutamos “cotton case for an iron pill”, podemos associar a “pílula de ferro” ao conceito de objeto de uma melancolia. O ferro é frio, pesado, rígido e, se ingerido em excesso, tóxico.
A “pílula de ferro” representa a crueza do sintoma e a tirania de um Supereu que exige perfeição (comum em quadros de anorexia). É algo que o sujeito não consegue digerir, metabolizar ou expulsar; está cravado no interior do Eu, pesando como chumbo.
Se o ferro é a dor bruta, o “algodão” é a tentativa de defesa. O algodão abafa o som, amortece o impacto, mas também isola o sujeito da realidade.
A “capa de algodão” é o entorpecimento. Para não sentir o “ferro” da angústia, o sujeito se reveste de uma camada de indiferença ou de um isolamento que, embora proteja, impede qualquer troca pulsional com o mundo exterior. É a imagem perfeita do isolamento do afeto.
Em “Emotion Sickness”, a orquestração crescente de Van Dyke Parks representa o transbordamento do Imaginário. Quando as palavras de Johns falham a música atinge um ápice que a letra não consegue mais conter.
Para a psicanálise, esse é o momento em que o Simbólico (a letra/linguagem) não dá mais conta do Real (a dor pura que não cabe em palavras).
Analisar o Neon Ballroom é entender que o sintoma não é apenas um erro de funcionamento, mas uma produção subjetiva. Daniel Johns não estava apenas “doente”; ele estava, através da música, tentando encontrar uma forma de suportar o peso da própria existência e encontrou uma saída belíssima para lidar com o próprio sofrimento.