É muito comum abrirmos textos, vídeos ou posts sobre psicanálise e encontrarmos o termo “sujeito” sendo usado como sinônimo de pessoa, indivíduo, paciente ou analisante*. Frases como “o sujeito estava triste” ou “o comportamento do sujeito” são quase que erroneamente onipresentes. No entanto, para um compromisso epistêmico, esse uso indiscriminado é um equívoco conceitual no mínimo preocupante.
Neste texto, veremos por quais motivos o sujeito não é o que se pensa que é e por que essa distinção é vital principalmente para a clínica.
Primeiramente, sujeito não é Indivíduo, na linguagem cotidiana ou na psicologia, o indivíduo é visto como uma unidade: um ser com vontade, consciência e uma identidade coerente.
Na psicanálise, esse “ser unificado” é o que chamamos de Eu (Moi), que é uma construção imaginária feita de identificações e alienação. O sujeito (Ꞩ), por outro lado, não tem substância. Ele não é uma pessoa que caminha na rua. O sujeito lacaniano é uma emergência.
O sujeito é aquilo que emerge, entre um significante e outro. Ele não é o autor da fala, mas um efeito da linguagem. Dizer que um “sujeito fazer tal coisa” é um contrassenso, pois o sujeito só aparece no que há de mais singular e involuntário: no ato falho, nos chistes, no sonho e no sintoma, por exemplo.
Lacan define que: “um significante é o que representa o sujeito para outro significante” (1960 – Subversão do sujeito e dialética do desejo – Escritos – Página 833). Isso significa que o sujeito está sempre em falta, sempre “barrado”. Um analista pode passar meses em sessão com um “indivíduo” (contando fatos, reclamando do trabalho). O sujeito só aparece quando algo atravessa esse discurso quando um lapso revela um desejo que o “Eu” até então desconhecia.
Ao escrever ou falar sobre psicanálise, devolver ao termo “sujeito” o seu lugar de exceção e de emergência é respeitar a ética da psicanálise que Freud evoca em sua nova conferência introdutória de número 31 com a famosa frase “Wo Es war, soll Ich werden”. Muitas vezes traduzida erroneamente como “Onde era o Id, o Eu deve advir”, sugerindo uma domesticação das pulsões pelo Ego, Lacan devolve a essa frase o seu rigor clínico considerando o sujeito como dividido entre o saber consciente e a verdade inconsciente. Portanto, não se pode “ser” um sujeito no sentido de uma identidade estável; o sujeito emerge.
Quando usamos “sujeito” para descrever comportamentos ou características de personalidade, estamos “substancializando” o que deveria ser entendido como um intervalo em uma hiância.
O Indivíduo: Come, dorme, trabalha e segue normas sociais.
O Eu (Moi): Acredita que é dono de suas vontades e busca a unidade (o “virar um”).
O Sujeito: É o efeito da divisão produzida pela linguagem, o ponto de falta que impulsiona o desejo.
Entender que o sujeito não é o analisante sentado à sua frente, mas algo que pode surgir no discurso dele, muda tudo. A escuta deixa de ser sobre o “comportamento” de alguém e passa a ser sobre os lapsos onde a verdade do desejo se manifesta e o mesmo se implica.
*“Lacan sugeriu precisamente “analisante”, em vez de analisando, para denotar que ali não havia a menor passividade.” Artigo: “CADA UM TEM O ANALISTA QUE MERECE” de 2010 por Ricardo Goldenberg