O filme “Morra, Amor” (Die My Love, 2025) mergulha nas profundezas mais sombrias da psique, onde o amor, o desejo e a violência se entrelaçam. Para a psicanálise, a obra é um campo fértil para investigar o que Freud chamou de Unheimlich e a complexidade do desejo materno descrito por Lacan.
Um dos pontos mais perturbadores do filme é a presença do cachorro que late incessantemente. Esse latido encarna o Unheimlich (o “estranho”, o “inquietante”, o incômodo, o infamiliar, o estrangeiro). Freud explica que o Unheimlich é algo que deveria ter permanecido oculto, mas que emerge, tornando o familiar em algo estranho. O latido denuncia o que há de “animal” e não domesticado dentro da casa.
Esse estranhamento se estende aos laços: o marido torna-se um estranho, “um qualquer”, e a própria protagonista se torna opaca para si mesma, perdendo-se nas repetições da vida doméstica. É nesse cenário de esvaziamento que surge o amante uma figura que, em vez de oferecer conforto, radicaliza o estranhamento. O relacionamento com ele não é um idílio, mas um encontro com o pulsional. Quando ela pede que ele “corte o próprio lábio”, o filme nos joga no campo da automutilação e de um desejo que beira a dor. O amante atua como o agente externo que convoca a protagonista a sair de sua letargia através de uma agressividade que é, ao mesmo tempo, erótica e perturbadora.
Enquanto a relação com o marido se esvazia, a conexão com o filho é de uma simbiose absoluta e perigosa. Para entender esse laço, precisamos recorrer a Lacan. Se no Seminário 4 ele nos fala da relação de objeto e do filho como o Falo que completa a mãe, é no Seminário 17 (pág. 105) que ele nos dá a metáfora definitiva para o que vemos na tela:
“O papel da mãe é o desejo da mãe. É capital. O desejo da mãe não é algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um grande crocodilo em cuja boca vocês estão — a mãe é isso. Não se sabe o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da mãe é isso.”
Em Morra, Amor, a protagonista vive exatamente esse impasse. Ela é, ao mesmo tempo, a boca do crocodilo que pode devorar o filho nessa relação simbiótica e o sujeito que teme ser devorado pelo próprio desejo materno.
Lacan menciona logo em seguida na mesma lição o Nome-do-Pai que deveria ser colocado na bocarra para impedir que ela se feche. No filme, porém, a Lei do pai/marido parece ausente ou ineficaz, deixando a mãe e o filho entregues a esse desejo cru, sem mediação, que oscila entre a proteção absoluta e a destruição potencial.
Morra, Amor incomoda porque desmistifica a “maternidade cor-de-rosa” e expõe o Real do desejo. O filme mostra que, sob a superfície de qualquer lar, habitam latidos, mordidas, amantes inquietantes e a presença constante desse “grande crocodilo”. É um convite para olharmos para aquilo que, em nós, também resiste à domesticação.