Os filmes do diretor grego Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas, O Lagosta) é conhecido por colocar a natureza humana sob uma lente de aumento desconfortável, revelando nossas bizarrices, egoísmos e falhas estruturais. Em seu novo filme de ficção científica e comédia, Bugonia (2025), estrelado por Emma Stone e Jesse Plemons, o diretor leva essa provocação ao limite.
No entanto, o que mais chama a atenção em Bugonia não é apenas sua estética surrealista, mas a reação visceral que provoca no espectador: um profundo sentimento de alívio ao ver que o “maior problema do mundo”, o ser humano é finalmente eliminado.
Na psicanálise, podemos entender esse alívio através do conceito freudiano de “O Mal-estar na Civilização”. Freud argumentava que a cultura e a convivência social exigem que o sujeito renuncie a grande parte de suas pulsões. O resultado é uma humanidade cronicamente insatisfeita, neurótica e, muitas vezes, destrutiva para si mesma e para o ambiente.
Em Bugonia, a humanidade não é apresentada como a heroína da resistência contra uma invasão, mas como a fonte do caos. Quando o filme aponta para a eliminação do humano, ele toca em uma fantasia inconsciente de “limpeza”: a ideia de que, sem o ruído do desejo humano, o mundo finalmente recuperaria sua harmonia original.
Por que o fim do mundo nos parece, em certo sentido, relaxante? Aqui entra a Pulsão de Morte (Thanatos). Para a psicanálise, existe no ser vivo uma tendência a retornar ao estado inorgânico, à paz absoluta onde não há mais conflitos, demandas ou sofrimento.
A presença humana é, por definição, conflituosa. Onde há linguagem, há mal-entendido.Ver a eliminação da espécie na ficção permite que o espectador experimente, de forma segura, o desejo de cessação das pressões da vida moderna.
Lanthimos utiliza a comédia ácida para nos desarmar. Ao rirmos do nosso próprio extermínio em Bugonia, estamos praticando aquilo que é impossível de simbolizar totalmente na ordem do Real.
O “problema humano” em Bugonia é que somos seres que não se encaixam perfeitamente na natureza; somos seres de excesso. O filme sugere que a solução para esse excesso é o corte radical. O alívio sentido no final é a descarga dessa tensão acumulada de tentarmos, sem sucesso, sermos uma espécie “ajustada”.
Sentir alívio com o fim da humanidade em um filme não significa um desejo literal de extinção, mas revela o quanto estamos sobrecarregados pelo “ser humano” que somos obrigados a sustentar todos os dias.