Para quem estuda a psicanálise lacaniana, a tríade Simbólico, Imaginário e Real (S.I.R.) é o alicerce da clínica. Baseado no esquema de 1953 de Jacques Lacan, este artigo propõe um roteiro para mapear o processo analítico, desde a demanda inicial até a simbolização final.
Como se inscreve o caminho de uma análise? Apresentamos a sequência de nove tempos que descrevem a transformação do sujeito através de sua relação com a resistência (real) (R), o símbolo (S) e a imagem (I).
O esquema se apresenta no texto da seguinte maneira:
rS – rI – (iI)* – iR – iS – sS – SI – SR – rR -rS
*citado no texto mas não no esquema original por lapso.
Os Nove Tempos da Análise: A Sequência (rS → rS)
Utilizamos a seguinte notação para acompanhar o fluxo: r (realizar/realização), s (simbolização) e i (imaginação).
1. Realizar o Símbolo (rS): A Demanda Inicial
O percurso começa quando alguém se endereça ao analista, expressando a Realização do Símbolo (rS). Há um apelo: “o senhor tem a minha verdade, mas é ilusória”. É a instauração do Sujeito Suposto Saber, fundamental para a abertura da análise. Que Lacan formula posteriormente na sua obra no seminário 8 (a Transferência na aula de 14/12/1960)
2. Realização da Imagem (rI): As Entrevistas Preliminares
Segue-se a Realização da Imagem (rI). Nas entrevistas preliminares, o analisante se põe em jogo com seu imaginário e suas identificações, onde a resistência já se manifesta.
3. Imaginação da Imagem (iI)*: A Transferência em Jogo
A Imaginação da Imagem (iI)* marca um ponto crucial onde algo da transferência se estabelece, frequentemente por via negativa. É a captação da imagem constitutiva de qualquer realização imaginária do sujeito.
4. Imaginação da Resistência (iR)
Neste tempo, a Imaginação da Resistência (iR), a imagem é transformada em resistência de transferência negativa. O analista começa a intervir sobre o engajamento imaginário.
5. Imaginação do Símbolo (iS): O Material de Análise
Com a transferência estabelecida, a Imaginação do Símbolo (iS) permite localizar um sonho. O sonho é visto como uma imagem que é simbolizada (produto da própria análise estabelecida, e não apenas uma manifestação anterior).
A Fase Imaginária: Os tempos rI – (iI)* – iR – iS marcam o predomínio da fase imaginária da análise, que precisa ser atravessada para que o trabalho de simbolização se instale de fato.
6. Simbolização do Símbolo (sS): Inversão e Comando do Simbólico
A Simbolização do Símbolo (sS) permite uma espécie de inversão: a transferência sai do do estágio negativa e o registro Simbólico (S) começa a comandar. Este é o trabalho de escuta e pontuação que o analista deve fazer.
7. Símbolo/Imagem (SI): A Interpretação
O tempo Símbolo/Imagem (SI) corresponde à elucidação do sintoma pela interpretação. O sintoma, que antes era uma imagem paralisante, agora ganha um lugar na cadeia simbólica, podendo ser lido e trabalhado.
A Elucidação do Sintoma: Os tempos sS – SI são cruciais para a elucidação do sintoma através da intervenção e da interpretação.
8. Símbolo/Resistência (SR): O Próprio Desejo
O momento Símbolo/Resistência (SR) é o reconhecimento da própria realidade do sujeito. Não se trata de adaptar-se a um real socialmente definido, mas de simbolizar a resistência e reconhecer assumindo Seu Próprio Desejo.
9. Realizar Resistência (rR): O Real é Racional
A Realização da Resistência (rR), tocando o Real. O trabalho do analista é balizado pelo princípio de que “todas as realidades são realidades”, e o que é Real é Racional (e vice-versa).
10. Realizar o Símbolo (rS): O Retorno
A análise se completa com o retorno ao ponto de partida (rS), a Realização do Símbolo, mas em um novo patamar. O sujeito agora realiza simbolicamente sua própria história, desalienado do Outro (conceito que se apresenta mais conceitualizado a partir do seminário 2 entre 1954/55) e capaz de assumir as consequências de seu desejo.