A série Tremembé (Prime Video, 2025) lança uma espécie de olhar voyeurístico e ao mesmo tempo algo da ordem do incômodo sobre a “prisão dos famosos”, onde criminosos que chocaram o Brasil cumprem suas penas. Ao expor a intimidade carcerária de figuras como Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, a série toca em questões que são o cerne da investigação Psicanalítica: o que é o Mal, como o sujeito se relaciona com a Lei e como se opera (ou não) a culpa?
Para a Psicanálise, o crime e a transgressão não são apenas atos morais ou legais, mas manifestações profundas da estrutura psíquica do sujeito.
Em Freud, o sujeito é constituído pela internalização da Lei (o Complexo de Édipo), que é a interdição do desejo incestuoso e parricida. Essa Lei é internalizada como o Supereu, nossa instância moral e crítica resumidamente.
O que a série Tremembé parece mostrar é o resultado da falha Supereu ou da perversão. Freud teorizou em “Alguns tipos de caráter encontrados na clínica psicanalítica” (1916) que alguns sujeitos criminosos agem impulsionados por um intenso sentimento de culpa inconsciente. Paradoxalmente, o crime seria uma tentativa de aliviar essa culpa. Ao cometer um ato proibido e, finalmente, ser punido (preso), o sujeito obtém um “castigo” que, momentaneamente, satisfaz a ferocidade de seu Supereu.
Para os criminosos de Tremembé, o ato não é apenas um desvio, mas uma afirmação radical de um desejo que não se submeteu à castração simbólica da Lei. Eles buscam romper a ordem e pagar o preço da notoriedade, o que, para alguns, pode ser uma forma distorcida de reconhecimento ou pulsão de morte direcionada ao Outro.
A série nos força a refletir sobre o Ato criminoso e sua relação com o Real – aquilo que não pode ser simbolizado, o trauma puro, a violência nua e crua.O crime pode ser entendido como uma passagem ao Ato, uma ruptura que tenta dar conta de uma falta constitutiva do sujeito. Quando o Grande Outro (esse campo que abrange a sociedade, a Lei, a família) falha em fornecer significantes que sustentem o desejo, o sujeito pode buscar o Real no ato violento, tentando preencher um vazio com a destruição.
Lacan introduz o conceito de Gozo, que é uma satisfação para além do Princípio do Prazer (Freud, 1920), ligada à dor e à transgressão. A série, ao mostrar a rotina dos condenados, expõe as diversas formas de gozo que persistem mesmo na clausura, seja na manutenção da fama, nos jogos de poder internos ou na alienação da responsabilidade.Tremembé é um laboratório para a reflexão sobre a complexidade da mente humana. O que a Psicanálise oferece não é a absolvição, mas uma ferramenta para compreender a estrutura psíquica por trás da transgressão. A verdadeira pena, muitas vezes, é a prisão no próprio Inconsciente e a impossibilidade de se livrar de um trauma auto-imposto.