O filme Depois da Caçada (2025) é mais do que um thriller psicológico ambientado em Yale; é uma investigação minuciosa sobre a falibilidade do testemunho humano, a moralidade sob pressão e o poder destrutivo da Mentira – temas caros para a Psicanálise.
A protagonista Alma Imhoff (Julia Roberts), uma professora universitária apaixonada por sua profissão, se vê no centro de uma crise ética e emocional após uma grave acusação feita por sua aluna (Maggie Price) contra um professor que é seu colega e amigo Hank. A verdade se torna elástica, e a busca pela realidade dos fatos revela a teia de segredos e dissimulações que sustentam a identidade e a reputação de cada personagem.
Para a Psicanálise, a mentira não é apenas um desvio moral, mas uma função crucial na estruturação do sujeito. Jacques Lacan argumenta que a linguagem (a Palavra) é inerentemente falha. O sujeito se constitui não na verdade absoluta, mas naquilo que pode ser dito e aceito pelo Grande Outro (a sociedade, a academia, a Lei). A mentira, nesse contexto, pode ser uma tentativa desesperada de dar conta de uma falta ou de controlar a narrativa quando a verdade é insuportável ou ameaça a posição social (reputação) do sujeito.
Em Freud, a dissimulação é uma manobra da consciência para proteger o Eu(ego) dos desejos ou culpas insuportáveis que residem no Inconsciente. Em Depois da Caçada, as mentiras e meias-verdades dos personagens — desde a aluna, o professor acusado e a própria Alma, que guarda seus segredos do passado — são sintomas que clamam por uma escuta analítica. O que está sendo recalcado para manter a fachada de ética e excelência acadêmica?
O simbolismo em torno da nota de $20, com a efígie de Andrew Jackson, é uma metáfora poderosa que sustenta a crítica social do filme. Andrew Jackson é uma figura controversa na história dos EUA – conhecido por sua política de expansão, mas também pelo tratamento brutal e a remoção forçada dos nativos americanos, representa a fundação violenta e a culpa histórica que jaz sob a superfície da “civilidade” americana.
O dólar é um signo máximo do Poder, da Ambição e do Capitalismo. Ao ligar o dinheiro com destaque a imagem de Jackson, o filme sugere que a prosperidade da elite acadêmica é construída sobre um passado de violência e exploração. A nota de 20 dólares pode simbolizar o preço (custo) que cada personagem está disposto a pagar para manter sua verdade (ou sua mentira). Alma, ao tentar desvendar o quebra-cabeça, confronta não apenas as mentiras externas, mas a culpa e as transgressões do seu próprio passado. A nota de $20 se torna um significante da dívida que a sociedade, e individualmente os personagens, têm com o Real da História.Depois da Caçada nos lembra que, assim como o passado controverso de uma nação, o Inconsciente é um repositório de verdades inconvenientes e desejos não admitidos. A última caçada não é pela verdade objetiva, mas pela confrontação do sujeito com sua própria ambiguidade moral dentro da sua respectiva história.