O filme “Amores Materialistas” (2025), dirigido por Celine Song, vai muito além de um simples triângulo amoroso. Estrelado por Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans, o longa nos convida a mergulhar nas complexas dinâmicas do desejo e da escolha amorosa (que são coisas completamente distintas na clínica) na sociedade capitalista contemporânea. Para a Psicanálise, a trama da casamenteira Lucy (Johnson) e seu dilema entre o empresário rico Harry (Pascal) e o ex-namorado aspirante a ator John (Evans) é um espelho potente das nossas próprias contradições quando tentamos equilibrar os pratinhos com as nossas faltas, demandas, necessidades com o desejo.
No centro da narrativa está a tensão entre o materialismo e a autenticidade do afeto. Lucy, em seu trabalho, lida diariamente com a lista de “exigências” que transformam o amor em uma transação comercial cheia de checklists, onde status, riqueza e aparência são moedas de troca. Sob o olhar da Psicanálise, no entanto, sabemos que a escolha de um parceiro nunca é puramente racional ou material. Quando nos damos conta, o inconsciente já fez sua escolha e só percebemos quando já elegemos alguém por motivos inicialmente sintomáticos e inconscientes.
O filme expõe a falha da lógica materialista frente ao inconsciente. Por que a atração persiste por John, o ex-namorado com uma vida mais instável, enquanto Harry representa o “unicórnio” (o parceiro idealizado e financeiramente seguro e termo que se refere a uma startup de capital fechado que atinge um valor de mercado igual ou superior a US$ 1 bilhão) que ela própria ajuda a encontrar para suas clientes?
A Psicanálise nos mostra que o desejo, predominantemente inconsciente, frequentemente se articula com repetições e traumas. O que Lucy busca em John pode não ser o fracasso ou a instabilidade, mas a reedição de um drama psíquico familiar, uma fantasia que o outro, em sua incompletude, consegue despertar. O par “perfeito” (Harry), em sua aparente totalidade, pode ser insuportável por não deixar espaço para que o desejo se inscreva através da falta.
“Amores Materialistas” ressoa com a crítica psicanalítica à cultura de consumo e à busca incessante por satisfação imediata e supostamente completa. A promessa de felicidade através da parceria “ideal” é uma ilusão que tenta mascarar o vazio estrutural do sujeito. A riqueza de Harry oferece conforto, mas será que preenche a falta essencial que move o sujeito ao desejo?
O trabalho analítico busca justamente desnaturalizar essa busca por completude. Através da escuta, é possível entender como as escolhas amorosas (sejam elas aparentemente “materialistas” ou “românticas”) são atravessadas por significantes que fogem à consciência, abrindo caminho para uma escolha mais inédita/singular e menos neurótica/familiar.