Na psicanálise, alguns conceitos são tão fundamentais que operam como alicerces invisíveis da vida psíquica. Bejahung (pronuncia-se “be-iá-rung”), um termo alemão utilizado por Freud e radicalizado por Lacan, é um deles. Traduzido como “afirmação”, “júbilo” ou “assentimento”, ele não se refere a um simples “sim” consciente, mas ao gesto psíquico inaugural pelo qual o sujeito, em sua mais tenra infância, aceita um fragmento da realidade exterior, internalizando-o e, com isso, dando o primeiro passo para se constituir como um ser de linguagem.
Freud introduz o termo em seu texto “As Neuropsicoses de Defesa” (1894) e o desenvolve em “A Negação” de 1925. Para ele, o aparelho psíquico inicial é regido pelo princípio do prazer: tudo o que é bom é introjetado, tudo o que é mau é expulso. A Bejahung é o primeiro ato de julgamento. É o “julgamento de atribuição”, onde o sujeito diz: “Isso existe. Eu aceito isso em mim”. É a concordância em internalizar uma representação (uma imagem, um som, uma experiência) e ligá-la a uma carga afetiva.
Freud é claro: a negação (Verneinung) é apenas a repetição, em nível intelectual e consciente, daquele primeiro ato de expulsão. Para que algo possa ser negado (“Não foi minha mãe quem eu vi naquela pessoa”), ele primeiro precisou ter sido afirmado, ainda que inconscientemente. A negação é uma “Bejahung negativizada”.
Lacan, em seu seminário “As Psicoses”, retoma o conceito e lhe dá um estatuto central, articulando-o diretamente com a estrutura do inconsciente como linguagem.A Bejahung não é sobre internalizar uma coisa, mas internalizar um significante. É o gesto pelo qual a criança aceita que um significante do Outro (por exemplo, o significante “Mãe”) a represente. É o “sim” à entrada na ordem simbólica, à linguagem. Esse ato de afirmação cria uma divisão fundamental. Ao aceitar o significante “Mãe”, a criança perde para sempre a coisa real, a experiência bruta da mãe. A Bejahung é, portanto, um pacto: ganha-se a capacidade de simbolizar, de lembrar, de desejar através da linguagem, mas perde-se o acesso direto ao Real. É o preço para se tornar um sujeito.
Bejahung vs. Verwerfung (Foraclusão): É aqui que o conceito se torna clinicamente crucial. Lacan opõe Bejahung à Verwerfung (foraclusão). Se a Bejahung é a afirmação e internalização de um significante fundamental (como o significante do Nome-do-Pai), a Verwerfung é sua expulsão radical. O que é foracluído não é recalcado para o inconsciente; é expulso do universo simbólico do sujeito. E, como diz Lacan, “o que é foracluído do simbólico reaparece no real” (Seminário 3 – 1955-1956/1985, p. 21). Este é o mecanismo fundamental da psicose, onde o sujeito é confrontado com alucinações (o retorno no real do significante foracluído).
Na Neurose: O neurótico realizou a Bejahung dos significantes fundamentais. Seus conflitos se dão dentro do campo simbólico, entre significantes recalcados e a consciência. A análise visa trazer à tona o que foi afirmado e depois negado (recalcado), para que o sujeito possa se re-relacionar com sua verdade.
Na Psicose: Há uma falha na Bejahung de um significante crucial (o Nome-do-Pai). A análise não pode se basear na interpretação do inconsciente simbólico da mesma forma, pois a estrutura está fragilizada. O trabalho é de ajudar o sujeito a construir uma “suplência” para aquilo que foi foracluído.
A Bejahung é, portanto, muito mais que um conceito; é o ato fundador da subjetividade. É o “sim” primordial que permite que o sujeito habite o mundo da linguagem, mas também é o gesto que o condena à falta e ao desejo. Compreendê-la é compreender a linha tênue entre a neurose e a psicose, e é reconhecer que, antes de qualquer negociação complexa com o mundo, houve um primeiro e crucial assentimento: o de que vale a pena significar, mesmo que isso implique uma perda eterna. É o júbilo de entrar no jogo da linguagem, o grande jogo que a psicanálise se propõe a decifrar.