A Travessia da Fantasia e do Fantasma em Lacan

Na psicanálise lacaniana, o fantasma fundamental ($ ◊ a) não é um devaneio ou uma fuga da realidade. Pelo contrário, é uma estrutura inconsciente que constitui a realidade para o sujeito. É a resposta singular que cada um elabora ao trauma do desejo do Outro e à própria falta. O fantasma é um cenário, uma narrativa que posiciona o sujeito em relação ao objeto a (a causa do desejo) e oferece uma garantia de gozo. No entanto, essa é uma espécie de armadilha necessária. A travessia do fantasma é, portanto, o momento crucial no processo analítico onde o sujeito não mais habita essa fantasia, mas pode vê-la, interrogá-la e se descolar dela.

O fantasma protege o sujeito do encontro direto com o Real puro da falta e da castração. Ele dá uma “razão” para o desejo e organiza nosso mundo pulsional. Por exemplo, fantasmas como “eu só sinto que existo quando sou amado por alguém” ou “é preciso sofrer para ser digno de amor”.

A fantasia não é apenas uma defesa; é também o roteiro do nosso gozo. Ela nos diz como e onde iremos buscar satisfação, sempre circundando o objeto perdido, mas nunca o atingindo de fato. O sujeito fica preso em uma repetição: ele revive incessantemente o mesmo roteiro de desejo e frustração, pois é isso que lhe é familiar e, de um modo paradoxal e satisfatório (gozo).

A travessia da fantasia não é a destruição da fantasia. É a operação pela qual o sujeito, através do longo trabalho da análise, deixa de ser ator ou personagem de seu roteiro fantasmático e assume a posição de autor. Ele pode, finalmente, ver a fantasia como fantasia.

O sujeito se separa da posição rígida que ocupava em seu fantasma (de vítima, salvador, aquele que sofre, etc.).

Ele assume que seu desejo é causado por uma falta (o objeto a), e que essa falta é irredutível. Não há um objeto que possa preenchê-la completamente.

Lacan situa a travessia do fantasma como a operação que define o fim de análise. É o momento em que o sujeito pode se deparar com a pergunta “Che vuoi?” (“O que você quer?”) de uma nova maneira. Já não é mais uma pergunta angustiante direcionada ao Outro, mas uma pergunta que ele assume para si, sabendo que não há uma resposta final.

O analisante compreende que o desejo não era pelo objeto final (o parceiro, o sucesso, o dinheiro), mas o desejo em si mesmo, como puro movimento. Ele se identifica com a própria causa de seu desejo (o objeto a), e não mais com os objetos que prometiam satisfazê-lo.

Após a travessia, a relação do sujeito com o mundo muda. Ele não espera mais que o Outro ou um objeto complete sua falta. Há uma aceitação da incompletude como fundante da condição humana.

Não é uma liberdade para “ser feliz” no sentido imaginário, mas a liberdade de não mais ser escravo de um gozo fixo e repetitivo. O sujeito pode inventar novos modos de gozo, menos sintomáticos.

O sujeito se torna responsável por seu desejo e por seu gozo. Ele não culpar mais totalmente o Outro (os pais, a sociedade, o parceiro) por sua posição subjetiva.

Ao final, o desejo do analista (que guia o processo) cessa sua função, e o desejo do analisante se torna, na medida do possível, mais alinhado com seu desejo inconsciente, porém sem a ilusão fantasmática. A travessia da fantasia é, acima de tudo, um ato ético. É a coragem de abdicar das certezas imaginárias que nos sustentam para nos confrontarmos com a falta que nos constitui. Não se trata de encontrar uma “verdade” sobre si mesmo, mas de romper com a ilusão de que tal verdade completa existe. É um processo de desaprendizagem das identificações mais profundas para, finalmente, poder desejar de um modo mais livre, assumindo a solidão radical de ser sujeito de seu próprio desejo. É, na definição mais precisa, assumir a própria castração.

*Embora os termos sejam por vezes usados como sinônimos no contexto da tradução, há uma distinção entre eles:
Fantasia (a cena): É o “roteiro” imaginário que envolve o objeto de amor e que serve para dar um sentido à experiência.
Fantasma (o suporte): É a fórmula estrutural <> que a fantasia sustenta,representando a relação do sujeito barrado $ com o objeto a, que é a causa do desejo, mas que é impossível de encontrar.